O Brasil deve colher mais uma safra recorde de soja, com produção próxima de 180 milhões de toneladas, mas a dependência da exportação de grãos e as mudanças na estratégia de importação da China acende um alerta no setor. Para enfrentar esse cenário, a Embrapa Soja e o Governo do Paraná assinaram uma carta de intenção que prevê investimentos em pesquisa para melhorar a qualidade da proteína e do óleo da soja e estimular novos usos industriais do produto.

A solenidade de assinatura ocorreu na sexta-feira (6), durante a abertura do Dia de Campo de Verão, realizado na Embrapa Soja, em Londrina, e contou com a presença da presidente da Embrapa, Silvia Massruhá (em formato remoto), do secretário de Inovação e Inteligência Artificial do Paraná, Alex Canziani, do chefe-geral da Embrapa Soja Alexandre Nepomuceno e da assessora de relações institucionais e inovação da Fundação Araucária Cristianne Cordeiro Nascimento.

O acordo prevê um investimento inicial de R$ 5 milhões para ampliar estudos sobre qualidade da proteína e do óleo da soja e incentivar o desenvolvimento de produtos derivados do grão.

Segundo Nepomuceno, o momento é favorável para discutir o futuro da cadeia produtiva e a forte dependência comercial entre os dois países. “Existe uma dependência absurda da China conosco e nós com a China. Vinte cinco por cento dos produtos agrícolas que chegam na China vêm do Brasil”, disse o chefe-geral da Embrapa.

A China vem adotando medidas para reduzir a dependência de importações de alimentos, especialmente após os impactos logísticos causados pela pandemia. “Desde a pandemia a China está mudando para uma estratégia de trazer o fornecimento de comida para mais perto, tanto que a China está incentivando a produção de soja em locais mais próximos, como África e Rússia e Índia. O governo chinês já estabeleceu metas para diminuir a necessidade de soja importada nas próximas décadas. A perspectiva é que a China reduza em 70% a dependência de soja importada até 2035”, explicou.

Nesse contexto, Nepomuceno defende que o Brasil precisa ampliar o processamento da soja e fortalecer outras cadeias produtivas. Atualmente, parte da soja produzida no país já é utilizada para produção de proteína animal. Cerca de 30% da produção de soja fica no Brasil para produção de proteína animal.

VALOR AGREGADO

O secretário de Inovação e Inteligência Artificial do Paraná, Alex Canziani, afirmou que esse projeto vai ser estratégico para o Brasil. “O Paraná precisa focar em variedades que tenham mais valor agregado. A gente acredita que chegando a essa nova variedade, vamos ter uma condição muito boa de poder melhorar a renda para o produtor, de poder posicionar o Estado realmente como um Estado que agrega valor cada vez mais na sua produção”, disse o secretário.

A presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, disse que “este é o momento de pensarmos na soja muito além da produção de proteína vegetal. Estamos olhando para a agregação de valor em setores que, até pouco tempo, pareciam distantes do campo.”

A diretoria da Fundação Araucária afirmou que o fomento financeiro, atua como um articulador estratégico de todo o ecossistema paranaense.

“Estamos destinando um aporte de R$ 5 milhões para estruturar um programa integrado que vai além do fomento financeiro: atuamos como articuladores estratégicos, integrando a pesquisa científica da Embrapa e as políticas públicas que fortalecem nossa competitividade. Estamos plantando hoje a base para que o Paraná se consolide cada vez mais como referência nacional e internacional em uma economia de base biológica”, ressalta Cristianne.

LINHAS DE PESQUISA

A proposta do projeto é ampliar ainda mais as aplicações da soja, inclusive na indústria química, como já ocorre em outros países. “Os americanos estão fazendo pneu, estão fazendo lubrificante, estão fazendo sola de sapato”, comentou Nepomuceno.

O projeto está estruturado em quatro eixos centrais: desenvolvimento de cultivares de soja com perfis proteicos e de óleo diferenciados; perfil diferenciado de aminoácidos na proteína da soja para maior eficiência de conversão alimentar, ganho de peso e redução de custos na produção de carnes; biocombustíveis avançados; e perfil para novos usos do óleo de soja, como lubrificantes, asfalto, materiais vulcanizados para fabricação de sapatos, correias de máquinas, entre outros.

“Uma das linhas desse acordo é desenvolver variedades com uma melhor qualidade de proteína. Com aminoácidos mais interessantes para a alimentação animal. A gente, também, quer dar dinheiro, por exemplo, para startups, para pegar e desenvolver produtos à base de óleo de soja”, disse o chefe-geral.

As pesquisas devem utilizar ferramentas avançadas de edição genética para modificar características da planta. Nepomuceno ressaltou que algumas variedades já estão em fase de testes no campo. Uma das características avaliadas é a redução da lecitina, substância presente no grão que pode causar problemas digestivos em animais quando não é tratada.

O projeto será desenvolvido inicialmente no Paraná, escolhido pela forte presença do sistema cooperativista agrícola, que facilita a introdução de novas variedades e a organização da produção. “O Paraná é o lugar perfeito pelo sistema cooperativo”, afirmou o chefe-geral da Embrapa. Para ele, ampliar o valor agregado da soja é essencial para garantir competitividade no longo prazo.

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