De um lado, espaço para crescer. Do outro, falta trabalhadores disponíveis para acompanhar essa expansão. É diante dessa contradição que se vê a indústria paranaense: em um cenário de baixo desemprego, empresas que pretendem aumentar a produção precisam encontrar outras formas de fazer mais com as equipes que já possuem. Nesse ponto, a tecnologia e a inovação deixam de ser uma aposta no futuro e passam a ser uma realidade do presente, conforme avaliou o superintendente da Fiep (Federação das Indústrias do Paraná), João Arthur Mohr, lembrando que essa situação foi um dos fatores que motivou a realização da Expo + Indústria, realizada pela entidade no Expotrade Convention Center, em Pinhais, na RMC (Região Metropolitana de Curitiba), no final de agosto.

Segundo Mohr, a entidade percorreu diferentes regiões do Estado e ouviu cerca de quatro mil empresários para identificar os principais obstáculos ao crescimento da indústria. Três grandes problemas foram levantados: energia, disponibilidade de trabalhadores e infraestrutura e logística. As três questões tentaram ser respondidas na Feira e chamou atenção, no evento, os cases de automação e robótica.

“Como você não tem gente, o que você tem que fazer para crescer, para continuar crescendo?”, questiona. A resposta, segundo o superintendente, passa pelo desenvolvimento e pela incorporação de novas tecnologias.

João Arthur Mohr, superintendente da Fiep: entidade identificou os principais obstáculos ao crescimento das indústrias
João Arthur Mohr, superintendente da Fiep: entidade identificou os principais obstáculos ao crescimento das indústrias | Foto: Sergio Ranalli

A lógica pode ser simples: uma indústria que produz mil peças com 50 funcionários e pretende dobrar a produção dificilmente conseguirá contratar outras 50 pessoas em um mercado de trabalho aquecido. A alternativa é aumentar a produtividade da equipe existente.

É nesse espaço que entra a automação. E ela não necessariamente significa substituir trabalhadores por robôs, conforme lembrou o dirigente da Fiep. Um braço robótico pode assumir tarefas repetitivas, por exemplo, liberando profissionais para outras funções dentro da indústria. Em uma linha de produção, processos como envase, fechamento de embalagens, organização de produtos em caixas e paletização podem ser automatizados, coloca Mohr. E complementa: “As pessoas que trabalhavam ali vão te ajudar a expandir a empresa, vão trabalhar em outras funções dentro de uma indústria.

A transformação também pode ser menos visível. Segundo o superintendente, um processo que antes exigia registros manuais em fichas de papel, por exemplo, pode ser automatizado por meio de códigos de barras e sistemas de gestão. A tecnologia, portanto, passa a ocupar não apenas o chão de fábrica, mas também a gestão, o controle de processos e a área comercial.

Do solo aos dados

A experiência da startup Irrigate, apresentada no evento, mostra como esse movimento alcança setores diferentes da economia. A empresa desenvolveu uma tecnologia capaz de analisar o solo em cerca de dez segundos. Segundo o expositor Breno Felipe Gonçalves, o procedimento tradicional pode levar de 15 a 21 dias.

A partir dos dados obtidos, o sistema também analisa condições climáticas e pode tomar decisões de forma autônoma sobre irrigação, adubação e climatização.

A empresa atua ainda no monitoramento de temperatura, umidade, pressão e concentração de CO₂ em câmaras frias, geladeiras e no transporte de cargas, ampliando o uso da tecnologia para processos de rastreabilidade.

A Irrigate entrou no processo de aceleração da Fiep quando tinha cerca de 200 clientes. Dois anos depois, segundo Gonçalves, já havia chegado a aproximadamente 700, ampliando também sua atuação do Paraná para outras regiões do Brasil e da América do Sul.

Uma nova vida para as baterias

Se a automação responde a um problema imediato de produtividade, outras tecnologias procuram solucionar desafios ambientais e econômicos que tendem a ganhar importância nos próximos anos.

É o caso da startup i9+ Baterias Elétricas e Energias, apresentada pelo engenheiro mecânico Sandro Moreira da Silva, que trabalha com economia circular e deep tech. A empresa pesquisa formas de dar uma segunda vida às baterias utilizadas em veículos elétricos.

Sandro Moreira, da i9+, pesquisa formas de dar uma segunda vida às baterias utilizadas em veículos elétricos
Sandro Moreira, da i9+, pesquisa formas de dar uma segunda vida às baterias utilizadas em veículos elétricos | Foto: Sergio Ranalli

Depois de cumprirem sua primeira função nos automóveis, essas baterias ainda podem ser aproveitadas em sistemas de armazenamento de energia.

A startup está na fase de preparação para levar a tecnologia ao mercado, depois de desenvolver o projeto dentro do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). O objetivo é chegar à produção industrial.

O desafio, segundo Moreira, não é apenas tecnológico. Questões relacionadas à propriedade intelectual, tributação e regulamentação também precisam ser resolvidas para que o reaproveitamento seja economicamente viável.

A proposta se encaixa no conceito de economia circular, no qual produtos e materiais permanecem em uso pelo maior tempo possível, reduzindo o descarte. Para o empresário, o reaproveitamento das baterias pode produzir efeitos ambientais, sociais e econômicos.

"Recentemente, a empresa foi convidada a ir à China para mostrar esse processo, porque os chineses não têm esse conceito de economia circular muito bem desenhado", explica Moreira. Segundo ele, além de resolver um problema ambiental, o reaproveitamento das baterias elétricas pode significar energia para pequenas propriedades agrícolas e empresas e também para famílias que não têm acesso à eletricidade, além de gerar empregos.

A indústria perto do consumidor

A inovação não está restrita à produção. Durante a feira, o empresário Carlos Simm, apresentou a Stickin, uma plataforma que utiliza gamificação para criar relacionamento entre marcas e consumidores.

A inspiração veio de um hábito conhecido de várias gerações: os álbuns de figurinhas. A diferença é que, em vez do álbum físico, o sistema utiliza uma plataforma digital capaz de coletar informações sobre o comportamento de consumo.

Uma das possibilidades é a leitura do cupom fiscal no ponto de venda. Com isso, a indústria pode ter acesso a informações sobre quem está comprando determinado produto, algo que nem sempre consegue identificar quando a venda ocorre na gôndola de um supermercado.

Segundo Carlos Simm, a ferramenta pode ser usada por varejistas, empresas de serviços, indústrias, organizações ligadas ao turismo e até iniciativas educacionais.

A lógica é transformar uma interação simples, com um álbum de figurinha digital, em uma fonte de dados e relacionamento. Em vez de terminar no momento da compra, a comunicação entre marca e consumidor pode continuar depois dela.

Um ecossistema para inovar

Para que essas soluções cheguem às empresas, porém, não basta desenvolver tecnologia. É preciso criar ambientes capazes de aproximar quem tem um problema de quem pode desenvolver uma solução.

Essa é uma das funções atribuídas ao Parque Tecnológico da Fiep, que completou um ano de funcionamento. Segundo a supervisora Julia Maia, a proposta nasceu da percepção de que a indústria precisava de apoio para inovar.

O parque reúne infraestrutura e programas voltados à conexão entre empresas, startups e ambientes de inovação. A ideia é fazer com que a indústria saia de sua própria “caixinha”, conheça soluções desenvolvidas por outras empresas e encontre possibilidades de parceria.

Entre as iniciativas estão programas de aceleração de startups e projetos voltados à mobilidade.

“O parque tecnológico tem esse dever e essa missão de simplificar a vida da indústria”, afirma Julia.

A estrutura também oferece mentorias e orientação para empresas que precisam transformar uma ideia ou uma pesquisa em negócio.

Produtividade além dos robôs

A discussão sobre o futuro da indústria, portanto, está menos relacionada à imagem de uma fábrica completamente robotizada e mais à capacidade de utilizar tecnologia para eliminar gargalos.

A própria Fiep mantém a Jornada da Produtividade, programa desenvolvido em parceria com o Sebrae para apoiar pequenas indústrias na identificação de pontos de melhoria. Segundo Mohr, micro e pequenas empresas podem receber consultoria sem custo, enquanto médias empresas têm acesso ao serviço com valor reduzido.

A Expo + Indústria foi realizada no Expotrade Convention Center, em Pinhais
A Expo + Indústria foi realizada no Expotrade Convention Center, em Pinhais | Foto: Sergio Ranalli

As soluções podem envolver desde mudanças no layout da fábrica até eficiência energética e automação de processos.

A mensagem que surge das diferentes experiências apresentadas na feira, comenta o superintendente, é que inovação não precisa necessariamente começar com um grande investimento em máquinas. Pode estar em um software, na reorganização de um processo, na coleta de dados ou em uma solução que permita aproveitar um produto que antes seria descartado.

Em um mercado de trabalho com pouca disponibilidade de mão de obra, encontrar maneiras de produzir mais com os recursos existentes deixa de ser apenas uma questão de modernização. Passa a ser parte da estratégia de sobrevivência e crescimento das empresas.

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