Embora superavitária, a balança comercial em Londrina dá sinais de desaceleração. Os dados comparativos de 2025 e 2026 mostram retração de quase 80% no saldo registrado no período de janeiro a junho e queda no início do segundo semestre. Os números do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) apontam diminuição expressiva nas vendas externas de alguns itens historicamente relevantes na pauta de exportações do município, como a soja, cujo recuo foi de quase 30% na primeira metade do ano, e o milho, com uma queda ainda mais severa, de quase 100%.

O saldo da balança comercial caiu de US$ 217,5 milhões entre janeiro e junho de 2025 para US$ 47,7 milhões neste ano. Enquanto as importações permaneceram estáveis, em US$ 288 milhões, as exportações baixaram de US$ 506,2 milhões para US$ 335,7 milhões.

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A produção do agronegócio é a principal base de sustentação da balança comercial em Londrina e chama a atenção a retração observada nas exportações do setor. Principal item comercializado com países estrangeiros pelo município, a receita com as vendas da soja ao mercado externo caiu 29,5% no primeiro semestre, baixando de US$ 239,8 milhões no ano passado para US$ 168,9 milhões neste ano.

O milho teve um desempenho ainda pior, com queda de quase 100% na receita. No primeiro semestre deste ano, as vendas do cereal somaram US$ 77,1 mil contra US$ 106,3 milhões no mesmo período de 2025. Em volume, as exportações do milho baixaram de 446 mil toneladas para apenas 364 toneladas. Com esse resultado, o grão caiu da terceira posição no ranking dos principais produtos exportados pelo município para a 46ª colocação.

O presidente da SRP (Sociedade Rural do Paraná), Ilson Romanelli, ponderou que esses dados devem ser analisados a partir da dinâmica completa das cadeias produtivas do Paraná, incluindo o consumo interno, a industrialização e a agregação de valor à produção agropecuária do Estado.

No caso do milho, apontou Romanelli, houve maior consumo do grão dentro do próprio Paraná, especialmente nas cadeias produtivas de proteína animal. “Parte dessa produção é absorvida internamente e transformada em produtos de maior valor agregado.”

Em relação à soja, Romanelli associou o recuo ao comportamento do mercado no período, que apresentou valores inferiores para a commodity. No entanto, os dados do MDIC mostram que as exportações da oleaginosa baixaram também em volume, caindo de 634 mil toneladas no primeiro semestre do ano passado para 398 mil toneladas neste ano, retração de 37,2%. “No café, a produção paranaense também é fortemente absorvida pelo mercado interno, especialmente pelas indústrias e torrefações instaladas no Estado, o que reduz o volume disponível para exportação.”

O comportamento da balança comercial londrinense contrasta com o movimento observado no país. O Brasil encerrou os seis primeiros meses do ano com superávit de US$ 42,35 bilhões, alta de 40,3% sobre o ano anterior.

E há uma tendência de queda para os próximos meses. Os resultados do início do segundo semestre não apontam recuperação. Sempre em relação a igual período de 2025, no último mês de julho, o saldo da balança comercial em Londrina caiu quase 50%, recuando de US$ 12,1 milhões para US$ 6,1 milhões, e em agosto também houve queda, de mais de 44%, baixando de US$ 77,6 milhões para US$ 43,3 milhões.

De janeiro a agosto de 2026, o saldo no município é de US$ 97,3 milhões, com queda de 21,8% na corrente de comércio, que representa a soma total dos valores exportados e importados no período. Com esse resultado, Londrina é o décimo município no ranking das exportações do Estado e o 110º no país. Nos oito primeiros meses de 2025, Londrina registrava saldo de US$ 307,3 milhões, uma diferença de 68,3%.

As guerras em curso no mundo ajudam a explicar alguns resultados, como o do milho e do café. O Irã, que no ano passado foi o segundo principal destino das exportações do município, com US$ 134 milhões, neste ano importou apenas US$ 4 milhões. E a Rússia, em guerra contra a Ucrânia desde 2022, era um importante comprador do café exportado pelo Norte paranaense. Mas em razão do conflito, reduziu as importações.

“Em compensação, as exportações para os Estados Unidos aumentaram 33%, basicamente por causa do café, que resultou em US$ 7 milhões a mais. As exportações aos EUA passaram de US$ 21 milhões para US$ 28 milhões de um ano para outro”, ressaltou o especialista em comércio exterior e CEO da W.Brazil Trader, Ricardo Kono, que comparou os dados de janeiro a agosto de 2025 com o mesmo intervalo em 2026.

Mesmo com a transferência das exportações do mercado russo para o mercado norte-americano, apontou Kono, ainda há uma lacuna. “As vendas de café à Rússia caíram mais de US$ 21 milhões, mas as vendas aos EUA cresceram US$ 7 milhões. Então, tem um gap aí ainda de US$ 14 milhões”, calculou.

O especialista tenta entender outros resultados da balança comercial londrinense. A China é, há anos, o maior comprador da produção nacional e também da local, especialmente da soja. O país asiático não comprou menos do Brasil neste ano, mas reduziu as importações de Londrina. “No Brasil, as exportações de soja para a China subiram 5% e para o mundo todo, cresceram 15%. Mas em Londrina, as vendas de soja ao mercado chinês caíram 37%”, destacou Kono.

Queda nas exportações diminui ritmo da economia local, diz economista

Uma das implicações econômicas para o município decorrentes da queda das exportações é a redução do ritmo das atividades econômicas locais direta e indiretamente ligadas à cadeia do agronegócio, avaliou o economista e professor de economia da Faculdade Anhanguera, Elcio Cordeiro da Silva. “A retração da atividade exportadora tende a se alastrar pelos demais setores da economia local, reduzindo, assim, a renda e o emprego na região.”

Outro efeito direto da retração nos resultados das vendas externas é a redução na arrecadação de impostos do município, uma vez que os setores de serviços vinculados à cadeia exportadora da cidade podem apresentar um desempenho menor e, consequentemente, uma menor geração de impostos, destacou o economista.

Silva lembrou que a taxa de câmbio é um fator importante e que impacta a balança comercial. “Até o dia 3 de agosto, o real acumulou cerca de 8,48% frente ao dólar. Esse fator, somado à menor produção dos setores ligados à exportação, ajuda a explicar a redução do saldo da balança comercial londrinense.”

O especialista em comércio exterior Ricardo Kono não vê em curto prazo a possibilidade de o município retomar as exportações e reverter o cenário de desaquecimento. “Não há fatores macroeconômicos relevantes que podem mudar o cenário até o final deste ano. O que pode acontecer, mas a partir do ano que vem, é a interferência de fatores políticos. O resultado das eleições (de outubro) pode fazer o dólar subir, potencializando as exportações”, avaliou.(S.S.)

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