Conflitos no Oriente Médio preocupam agronegócio paranaense
Irã é o principal mercado importador do milho produzido no Paraná; bloco econômico também é grande comprador de carne e soja
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de março de 2026
Irã é o principal mercado importador do milho produzido no Paraná; bloco econômico também é grande comprador de carne e soja

A escalada dos conflitos no Irã, no último final de semana, trouxe apreensão ao agronegócio paranaense. O país do Oriente Médio é o principal importador do milho cultivado no Estado e um importante mercado para a proteína animal e a soja produzidas aqui. Além dos efeitos imediatos da guerra na balança comercial, ainda há a expectativa dos reflexos sobre outros países relevantes para o comércio exterior caso os ataques se prolonguem. Um desses países é a China, principal mercado para o Brasil como um todo.
No ano passado, as importações iranianas de milho e seus derivados renderam US$ 604 milhões ao Paraná, segundo dados do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná). Em soja, o Irã comprou US$ 118 milhões. Dentre as exportações para países do Oriente Médio, as carnes, especialmente a de aves, somaram US$ 1,1 bilhão em 2025. Nesse bloco econômico, o milho é o segundo item mais comercializado pelo agronegócio paranaense.
Em um mundo globalizado, quando bombas explodem sobre um território, os estilhaços reverberam rapidamente em vários pontos do planeta, abalando a economia de forma generalizada, embora em diferentes escalas. Há cinco dias da eclosão do conflito no Irã, até esta quarta-feira (4) ainda eram imprevisíveis todos os desdobramentos, mas o cenário que se tinha era o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã com a ameaça de ataque a qualquer navio que tentasse passar pelo local.
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O estreito é uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, por onde escoa um quinto do petróleo consumido no planeta, ligando produtores do Oriente Médio aos principais mercados da Europa, América do Norte e região Ásia-Pacífico. Diante da possibilidade de escassez de petróleo, o preço do barril disparou e chegou a US$ 80, uma alta de mais de 20% sobre o preço cotado há menos de dez dias. Em 25 de fevereiro, o barril custava US$ 65.
Entre os agricultores paranaenses, uma das principais preocupações no momento é com a interrupção das exportações ao Irã, especialmente do milho. “Se (o conflito) durar mais do que duas semanas e não conseguir continuar o fluxo normal de exportações, (os agricultores) começarão a sentir os efeitos reais. Quanto mais durar esse conflito, esse fechamento (do Estreito de Ormuz) e essa dificuldade logística, maior o impacto nas exportações”, disse o técnico do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep, Anderson Sartorelli.
Petróleo também preocupa
Outro receio é a alta repentina do preço do petróleo, que pode aumentar os custos logísticos de toda a cadeia produtiva do agronegócio brasileiro e também impactar diretamente a China, um importante importador da produção agrícola nacional. “A China usa esse petróleo (do Oriente Médio) e daqui a pouco isso respinga na China, que é o principal parceiro comercial do Paraná e também do Brasil. É preciso ter cuidado e pensar em estratégias para sobreviver às questões geopolíticas”, alertou Sartorelli.
"(O conflito) gera uma incerteza logística e alta de custos. O Irã é um dos maiores compradores de grãos brasileiros e o fechamento do estreito e a alta do petróleo encarecem fretes, seguros, pressionando as margens de lucro", avaliou o presidente da SRP (Sociedade Rural do Paraná), Marcelo Janene El-Kadre.

O boletim conjuntural mais recente divulgado pelo Deral (Departamento de Economia Rural), órgão da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, indica que se as condições climáticas consideradas normais para o desenvolvimento das lavouras se mantiverem, a produção de milho no Paraná deverá alcançar 21,1 milhões de toneladas. Desse volume, 3,6 milhões de toneladas deverão ser colhidas na primeira safra e 17,5 milhões de toneladas, na segunda safra. No momento, a colheita da primeira safra avança no Estado e alcança 42% dos 341 mil hectares plantados neste ciclo.
Se a extensão do conflito ameaça as exportações paranaenses ao Irã, por outro lado, teoricamente, pode beneficiar produtores de proteína animal que usam o milho na alimentação dos animais e os consumidores, que poderão pagar preços mais baixos pelos produtos que antes eram exportados em razão da ampla oferta ao mercado interno. No entanto, essa é uma análise que depende de múltiplas variáveis, difíceis de serem avaliadas neste momento. “Se (a produção paranaense) não conseguir encontrar um fluxo viável e não conseguir vender o fluxo do Irã, deveria derrubar o preço (internamente), mas não é líquido e certo. Proteína animal, temos um mercado grande no Estado, que usa milho na produção, como insumos. (Com o conflito, o agronegócio) ganha de um lado e perde do outro. Quem exporta milho ganha menos, mas quem usa milho na alimentação de animais tem um custo mais barato na ração. Tem os dois lados, mas é tudo especulação”, disse Sartorelli.
Falta de ureia pode encarecer adubo
O presidente da SRP destacou a posição estratégica do Irã no suprimento brasileiro de ureia, fertilizante à base de nitrogênio.
"A interrupção do fluxo (de navios) pode encarecer o adubo para as próximas safras. Embora o custo do grão possa cair, as altas do diesel e do dólar elevam os custos operacionais. Então, (o preço do milho) depende muito do impacto final, de quanto tempo o conflito vai durar e da abertura de rotas alternativas para o escoamento"
Marcelo Janene El-Kadre - presidente da SRP
Os países do Oriente Médio são os principais exportadores de ureia para o mundo. Anualmente, esse comércio movimenta em torno de 20 milhões de toneladas do produto, o que corresponde a 35% do comércio marítimo global do fertilizante. No ano passado, quase 20% do total de ureia importada pelo Brasil vieram do Irã e de Omã, volume que representou 1,5 milhão de toneladas de um total de 8,2 milhões de toneladas de ureia compradas pelo Brasil para abastecer o agronegócio nacional.
Números: Conflito no Irã e impactos no agro do Paraná
🌍 O Irã é o principal destino do milho paranaense e mercado relevante para soja e proteína animal produzidas no Estado.
💰 Exportações em 2025/2024:
- Milho ao Irã: US$ 604 milhões
- Soja ao Irã: US$ 118 milhões
- Carnes ao Oriente Médio: US$ 1,1 bilhão (aves lideram)
🚢 Ameaça ao Estreito de Ormuz preocupa: rota escoa 1/5 do petróleo mundial. Possível fechamento eleva risco logístico e custo de fretes.
🛢️ Petróleo disparou mais de 20%, saindo de US$ 65 (25/2) para cerca de US$ 80 o barril em menos de dez dias.
📦 Risco imediato: interrupção das exportações de milho ao Irã se o conflito durar mais de duas semanas.
🇨🇳 China no radar: alta do petróleo pode afetar a economia chinesa, principal parceiro comercial do Paraná e do Brasil.
🌽 Produção recorde prevista no Paraná:
- 21,1 milhões de toneladas
- 3,6 milhões (1ª safra)
- 17,5 milhões (2ª safra)
- Colheita da 1ª safra está em 42% dos 341 mil hectares
📉 Possível efeito interno:
- Excesso de milho pode derrubar preços no mercado doméstico.
- Produtores de proteína animal podem se beneficiar com ração mais barata.
- Exportadores de milho podem perder margem.
🧪 Alerta para fertilizantes:
- Oriente Médio responde por 35% do comércio marítimo global de ureia.
- 20% da ureia importada pelo Brasil (1,5 milhão de t) veio de Irã e Omã em 2024.
- Interrupções podem encarecer adubo para próximas safras.
⚖️ Cenário ainda incerto: impacto final depende da duração do conflito e da abertura de rotas alternativas.


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.





