O fim de semana começou com o mundo consternado em todos os recantos onde bate um coração humanista e onde tremula - nas formas convencional ou transcendental - uma bandeira tricolor da República Islâmica do Irã.

Sob uma saraivada de ataques da maior potência ocidental e do seu aliado histórico na região, o comportamento futuro do gigante do Oriente Médio - onde vivem mais de 90 milhões de pessoas e que faz fronteira com sete países - se tornou o caso mais intrigante da geopolítica, com cenários tão diversos quanto imprevisíveis. Nos EUA, em Israel e na sede da ONU, estava aberta a temporada de especulações.

E os homens comuns que nasceram no Irã, como enxergam esta guerra contemporânea, onde não há trincheiras e o perigo cai do céu?

Até para uma sumidade em matemática, existem equações nas quais é difícil avançar e solucionar, cercar com aquele círculo vitorioso em torno do x = x”, transformar perguntas em respostas.

O pós-doutor Alireza Mohebi Ashtiani, um sorridente e falante quarentão de cabelos levemente grisalhos, usa seus dotes intelectuais invulgares e toda a sua bagagem de vida para raciocinar e formular hipóteses, com a mesma obstinação que o levou a uma posição invejável na carreira acadêmica e ao comando do câmpus londrinense da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

Iraniano nascido em uma pequena cidade na região central do país, distante poucas horas de carro da capital Teerã, o professor é um homem comum e se mistura à paisagem do Norte do Paraná com desenvoltura e discrição, embora suas manifestações contenham opiniões fortes e claras.

Ao receber a reportagem da Folha no seu escritório no terceiro piso de um dos dois grandes blocos que ocupam um terreno alto nos confins da zona leste, de onde a cidade se revela em quadrantes diferentes pelas janelas e corredores, ele parece mais um brasileiro das áreas mais quentes, com talento diplomático inquestionável e um português elaborado e com pouco sotaque, praticado no dia a dia com a esposa Marcela, com o filho de 13 anos, Benjamin (ambos campineiros), e com o pequeno londrinense Isaac, de 6 anos.

É uma terça-feira, dia que o noticiário internacional revelava uma escalada na tensão, antevendo uma página destacada na História, cujo ápice foi a morte no sábado do líder supremo do regime, Ali Hosseini Khamenei, o segundo aiatolá desde que a Revolução Islâmica de 1979 transformou o país de origem do matemático em uma teocracia.

O professor Ali, como gosta de ser chamado, demonstra preocupação com os familiares, acessíveis apenas após uma longa engenharia de conexões em voos comerciais que consomem até 20 horas, sem contar o trecho rodoviário da capital ao interior.

Aquedutos e vida espiritual

São muitos tios e primos na cidade natal, Ashtian, um aglomerado urbano de menos de 10 mil habitantes na província de Markazi, cercado por montanhas e terras férteis irrigadas com aquedutos, onde se produz trigo, base da economia local.

Os pensamentos se concentram mais na mãe, uma dona de casa viúva (o pai, um servidor público da área da assistência social, morreu pouco antes da pandemia do coronavírus), e nos dois irmãos, um contabilista do governo municipal de uma cidade vizinha que ainda vive com a mãe, e um bancário radicado em Teerã. “Quando meu pai estava vivo, visitava a família duas vezes por ano. Depois, uma. Porém, a última vez foi em 2024. No ano passado, a guerra com Israel em junho me impediu e também não consegui ir nas últimas férias por causa dos protestos nas ruas”, lamenta o professor.

A falta de contato presencial com suas raízes e os temores da devastação de uma guerra prolongada enchem sua cabeça, tão prodigiosa com números e fórmulas, e surgem reflexões sobre sua vida espiritual. “Minha família é muçulmana, super tradicional e conservadora. Já li o Alcorão duas ou três vezes, mas não frequento mesquitas. Minha esposa e meus filhos são evangélicos, da Assembleia de Deus”, conta. “Os líderes das igrejas, tanto os cristãos quanto os muçulmanos, muitas vezes usam a religião, a interpretam de forma errada, geram conflitos políticos. Todas as religiões falam a mesma coisa: Deus é único, fala de paz, amor e carinho. Não precisa ser religioso para ser feliz. Basta acreditar numa força maior e ter amor ao próximo, sem condicionar este gesto à igreja dele, à raça, gênero ou orientação sexual”, defende.

Após 20 anos de Brasil, já naturalizado, o iraniano da UTFPR tem uma notória satisfação em explicar a complexidade do seu país. Para traçar cenários do pós-ataque, ele explica como funciona a peculiar república, autoritária e refém da ideologia da ala mais radical do islamismo. Depois, empenha-se em descrever a conjuntura econômica e social. Fala da inflação galopante, da pobreza em um país rico em minerais, em especial as quase infinitas reservas de petróleo e gás natural, e grande produtor de pistache, tapetes, caviar, uva passa e damasco. Lembra que o salário mínimo só compra 6 kg de carne e que a corrupção campeia. “Funcionários do governo ganham milhões com a venda de VPNs para burlar as restrições da internet que o próprio governo é responsável”, exemplifica.

“Não acredito em mudanças implementadas pelo próprio governo porque o sistema barra qualquer decisão reformista e também porque alguns grupos se beneficiam economicamente deste regime. Não há saída amigável. Para o país tomar um novo rumo, só a ruptura, a queda do regime”, sustenta. Neste caso, ele acredita que a guerra terá que se arrastar por meses até a capitulação.

Salvadores ou inimigos?

E como o povo vai reagir aos ataques estrangeiros por tanto tempo? “Acredito que a população não suporta mais o regime e os mais jovens não são tão contra os Estados Unidos quanto as gerações mais velhas. Muitos olham para os Estados Unidos agora como um salvador, não mais como um inimigo”, adverte. “Na verdade, quem tem até 30, 35 anos, não quer saber quem é inimigo, o que Israel e Estados Unidos fazem. Eles querem ter paz e liberdade, querem namorar, conviver com o sexo oposto nas universidades, ir ao cinema. Estas iranianas e iranianos só querem viver bem porque sabem que estão num país rico, que gasta bilhões no exterior com guerras enquanto o povo sofre para comprar comida”.

Outro ponto que Ali destaca é que a Guerra dos 12 Dias no ano passado afastou de muita gente aquele temor de que os ataques norte-americanos e israelenses gerassem grande mortalidade entre os civis. “Eles acreditam que o ataque será direcionado, o que vai reduzir a revolta do povo com os bombardeios”.

Até os 18 anos, no fim dos anos 1990, o professor viveu distante da agitação política, protegido pela desimportância da sua cidadezinha. No entanto, certa vez, no primeiro ano escolar, ele recebeu uma aula prática do que é um bombardeio, quando oito caças vindos de Bagdá arrasaram uma área militar anexa à cidade. Era a Guerra Irã-Iraque, conflito que marcou os anos 1980 na região, e que para ele remete a alguns dias de retiro na zona rural com os pais e os irmãos e à perda de um primo no front.

Rio e Campinas

Depois que chegou à capital para fazer graduação em Matemática na aclamada Politécnica de Teerã, militou na política estudantil, sem muito destaque. Estava mais interessado em aprimorar seu currículo. Fez doutorado em Matemática em uma cidade no Noroeste do país, Zanjã, no Instituto de Estudos Avançados em Ciências Básicas. Lá conheceu outro matemático, Ali Tarzibe (hoje professor titular da Universidade de São Paulo), que recomendou uma escola brasileira para realizar seu doutorado, a exemplo dele. Foi assim que ele desembarcou no Rio de Janeiro durante o Carnaval de 2006 para ingressar no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), uma ilha de excelência intelectual encravada no bucolismo do Jardim Botânico. Dois anos depois se transferiu para a Universidade Estadual de Campinas. Na Unicamp, concluiu o doutorado em Engenharia Elétrica e pós-doutorado em Engenharia de Produção e Matemática.

Na UTFPR, ingressou em 2013 como concursado e estabilizou sua caminhada em Londrina, cidade que “ama” e onde se sente nato. Desde junho, é diretor-geral do câmpus num mandato que se encerra em 2029. Nas horas vagas, gosta de preparar um kebab iraniano, prato preferido dos filhos. Trata-se de um espeto de carne moída assado, um protagonista das refeições festivas que acompanha o arroz com açafrão. “Da culinária não tenho tanta saudade. Sinto falta mesmo é da minha mãe”, diz, com comovente melancolia.

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