Você sabe reconhecer um milagre?
O nascer do sol, uma uma tarde tranquila, o fato de podermos pensar, sentir e imaginar; tudo isso, que em essência é extraordinário, vai sendo lentamente rebaixado à condição de simples rotina
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segunda-feira, 23 de março de 2026
O nascer do sol, uma uma tarde tranquila, o fato de podermos pensar, sentir e imaginar; tudo isso, que em essência é extraordinário, vai sendo lentamente rebaixado à condição de simples rotina
Sylvio do Amaral Schreiner 

Hans Christian Andersen escreveu certa vez: “O mundo inteiro é uma série de milagres, mas estamos tão acostumados a eles que os chamamos de coisas do dia a dia”. A frase parece simples, quase ingênua à primeira vista. No entanto, ela toca em algo profundo. Nossa impressionante capacidade de nos habituarmos àquilo que, na verdade, deveria nos surpreender.
A vida psíquica possui um curioso mecanismo de adaptação. Aquilo que inicialmente nos causa espanto, admiração ou encantamento, com o tempo passa a ser assimilado como algo banal. O nascer do sol, a conversa com alguém querido, uma tarde tranquila, o fato de podermos pensar, sentir e imaginar. Tudo isso, que em essência é extraordinário, vai sendo lentamente rebaixado à condição de simples rotina.
Essa adaptação tem sua utilidade. Sem ela, talvez nos sentiríamos permanentemente sobrecarregados pelo impacto das experiências. Mas o preço desse funcionamento é alto: deixamos de perceber a riqueza daquilo que já está presente em nossas vidas.
Na cultura contemporânea, esse fenômeno parece ganhar uma intensidade ainda maior. Somos constantemente convocados a buscar algo mais. Mais experiências, mais conquistas, mais reconhecimento. A vida passa a ser organizada em torno de um ideal de perfeição que está sempre um pouco adiante, como se a plenitude estivesse em algum lugar distante que ainda precisa ser alcançado.
Nesse movimento, algo delicado se perde. Ao correr atrás de uma vida perfeita, muitas pessoas acabam não vivendo a vida possível que já possuem. O olhar se fixa naquilo que falta e deixa de reconhecer aquilo que existe.
Essa busca incessante por ideais muitas vezes está ligada a uma dificuldade de tolerar a imperfeição da existência. A realidade nunca corresponde totalmente às fantasias que construímos. A vida real é feita de momentos simples, de alegrias discretas, de pequenas decepções, de encontros inesperados e também de perdas. É nesse tecido imperfeito que a experiência humana verdadeiramente se desenrola.
Quando nos tornamos excessivamente orientados por ideais grandiosos, perdemos a sensibilidade para aquilo que acontece no presente. A mente passa a funcionar como um radar de insuficiências e sempre há algo que deveria ser melhor, maior ou mais extraordinário.
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Talvez por isso Andersen fale de milagres. Não no sentido sobrenatural, mas no sentido de uma capacidade de reconhecer a vida comum. O milagre não está necessariamente em acontecimentos espetaculares, mas no fato de que a existência, em si mesma, é um acontecimento improvável e precioso.
Nesse ponto, vale uma distinção importante. Frequentemente confundimos sabedoria com acúmulo de conhecimento. Acreditamos que sábio é aquele que sabe mais, que possui mais informações ou que domina mais teorias. No entanto, a experiência humana sugere outra possibilidade.
Sábio talvez seja aquele que aprende a viver. Alguém que desenvolve a capacidade de se disponibilizar para as experiências da vida, sem precisar transformá-las imediatamente em desempenho, conquista ou comparação.
Viver, nesse sentido, é permitir-se ser afetado pelas pequenas coisas: um gesto de gentileza, uma conversa inesperada, a beleza silenciosa de um momento comum. Quando recuperamos essa sensibilidade, algo se reorganiza dentro de nós. A vida deixa de ser apenas um percurso em direção a um ideal distante e passa a ser um campo de experiências que já está acontecendo.
Talvez o milagre de que Andersen fala seja justamente esse que é perceber que, enquanto procuramos desesperadamente por algo extraordinário, a própria vida, com toda a sua simplicidade, já está nos oferecendo mais do que conseguimos notar.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




