Quando não sabemos nem mesmo namorar
Amar pessoas reais implica perder ilusões, mas também ganhar espessura psíquica
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segunda-feira, 09 de março de 2026
Amar pessoas reais implica perder ilusões, mas também ganhar espessura psíquica
Sylvio do Amaral Schreiner 

A notícia de que uma jovem japonesa “casou-se” com um personagem de inteligência artificial, conforme foi noticiado pela rede social da CNNBrasil, pode, à primeira vista, soar como excentricidade. No entanto, quando olhada com mais atenção, ela revela algo que ultrapassa o anedótico e toca uma ferida sensível da subjetividade contemporânea. A crescente dificuldade de sustentar vínculos humanos reais, com tudo o que eles implicam de frustração e trabalho psíquico.
Relacionar-se nunca foi simples. Desde os primeiros vínculos, amar implica confrontar-se com um outro que não coincide conosco, que falha, que deseja de modo próprio, que nos decepciona. A vida afetiva exige uma capacidade de tolerar diferenças, de elaborar ciúmes, de suportar esperas, de negociar limites. Trata-se de um aprendizado lento, atravessado por angústias primitivas e por inevitáveis decepções narcísicas. O encontro com o outro verdadeiro fere, em alguma medida, a fantasia infantil de completude e controle.
A parceria com uma IA, ao contrário, oferece um objeto sem opacidade. Um “outro” que não tem história própria, corpo, cansaço, contradições ou desejos. Um parceiro programável, que responde conforme comandos, que não abandona, não discorda, não exige revisões profundas do próprio funcionamento psíquico. É um vínculo sem risco real, mas também sem verdade.
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Do ponto de vista psicanalítico, poderíamos pensar que esse tipo de escolha amorosa protege o sujeito de antigas feridas: rejeições, invasões, humilhações, experiências precoces de desamparo. Ao substituir o encontro com um ser humano por uma entidade artificial, elimina-se o perigo da perda e do conflito, mas também se elimina a possibilidade de transformação emocional profunda. Preserva-se o eu, porém ao preço de um empobrecimento da experiência.
Há, nesse movimento, algo que lembra um retorno a formas muito primitivas de relação. Vínculos nos quais o outro existe apenas como extensão das próprias necessidades. O parceiro deixa de ser um sujeito e passa a funcionar como um dispositivo de regulação emocional, semelhante a um objeto tranquilizador. Não se trata propriamente de amor, mas de uma tentativa de anestesiar a solidão sem o trabalho psíquico que todo laço humano exige.
É compreensível que, em um mundo marcado por excesso de estímulos, competitividade, precariedade dos vínculos e medo crescente de sofrer, surja o desejo de relações “seguras”, previsíveis, sem conflito. Mas segurança absoluta, no campo afetivo, costuma ser sinônimo de estagnação. Onde não há frustração, tampouco há crescimento emocional. Onde tudo obedece, nada verdadeiramente surge.
Quando jovens preferem parceiros artificiais, talvez não estejam apenas fascinados pela tecnologia, mas expressando, em silêncio, um cansaço profundo de tentar amar e de não saber mais como fazê-lo. É como se dissessem: “o custo psíquico do outro é alto demais”.
A psicanálise nos lembra que a capacidade de se relacionar é construída, não dada. Ela depende de experiências iniciais suficientemente boas, de espaços internos onde o conflito possa ser pensado, de tolerância à ambivalência. Sem isso, o outro se torna excessivamente ameaçador.
O risco, porém, é que ao evitar o sofrimento inerente aos vínculos, evite-se também aquilo que nos humaniza. Amar pessoas reais implica perder ilusões, mas também ganhar espessura psíquica. Substituir isso por uma relação sem alteridade pode aliviar a dor imediata, mas tende a aprofundar, silenciosamente, uma forma mais radical de solidão: a de não ser, de fato, encontrado por ninguém.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




