Com o passar dos anos, muitos casais percebem que a intensidade inicial da relação vai se transformando em uma rotina marcada por monotonia e acomodação. O que antes era vivido como novidade, desejo e encantamento, pode dar lugar à sensação de previsibilidade e desinteresse. Esse processo, embora comum, traz consigo riscos: o afastamento afetivo, as relações extraconjugais e até a separação.

Muito dessa trajetória acontecer assim está ligada à dificuldade que muitos casais encontram em manter viva a curiosidade pelo outro. Em vez de se arriscarem a descobrir novas camadas na pessoa com quem compartilham a vida, muitos se fixam em uma imagem cristalizada do parceiro ou da parceira. Assim, deixam de perceber que a intimidade verdadeira não se esgota nas excitações sensoriais do início da paixão, mas depende de um trabalho contínuo de elaboração, de abertura para o novo que o outro pode revelar e que muitas vezes também é desconhecido para ele próprio. Depois de alguns anos juntos os casais até acham que se conhecem por inteiro, mas isso é impossível, já que eles não são mais as mesmas pessoas que iniciaram o relacionamento.

Outro ponto essencial são os inevitáveis conflitos. Brigas e desentendimentos fazem parte de qualquer relação prolongada, mas muitos casais não sabem como sobreviver a esses embates. Diante das diferenças, preferem evitar o confronto ou, ao contrário, se perdem em agressões que minam a confiança. No entanto, é justamente na capacidade de atravessar essas crises, sem negá-las nem destruí-las, que se constrói a verdadeira intimidade. O amor, para se sustentar, precisa ser continuamente reconstruído a partir da experiência de suportar o que não é ideal, o que frustra, o que exige negociação. E dentro de um relacionamento, principalmente longo, há sempre frustrações e negociações, nada permanece idealizado.

Viver em dois é, portanto, um trabalho psíquico de longo prazo. Significa aceitar que a relação amorosa não é estática, mas um organismo vivo, em constante transformação. Requer disposição para redescobrir o outro, mas também para se redescobrir dentro dessa convivência. Quando esse movimento é bloqueado pela rigidez ou pelo medo, o casal pode se refugiar em fantasias externas ou buscar fora o que deixou de cultivar dentro.

A psicanálise nos lembra que amar implica enfrentar a alteridade, ou seja, a diferença e a reconhecer que o outro não é uma extensão narcísica de si, mas alguém distinto, imprevisível, que pode tanto frustrar quanto surpreender. Quando o casal consegue sustentar essa diferença, abre espaço para um amor mais profundo, enraizado não apenas no prazer imediato, mas na construção lenta e constante da intimidade verdadeira.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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