Nos últimos anos passou-se a chamar de “pensamentos intrusivos” aquilo que, na experiência clínica, sempre esteve presente na vida mental: ideias súbitas, imagens estranhas, cenas de conteúdo sexual, agressividade ou conteúdos francamente absurdos, que irrompem sem convite e sem relação com os valores conscientes de quem as tem. O nome é novo, mas o fenômeno é antigo como o próprio ser humano.

Esses pensamentos costumam assustar porque parecem estrangeiros dentro de nós. A pessoa se pergunta: “Como posso imaginar algo assim?”, “O que isso diz sobre meu caráter?”, “E se isso significar que, no fundo, eu sou perigoso ou estranho?”. Muitas vezes surge a fantasia de que a mente é um território que pode se desorganizar, trair o sujeito ou levá-lo a atos que ele jamais desejaria cometer. Assim, o pensamento intrusivo passa a ser vivido como sinal de falha moral, mau presságio ou ameaça de perda de controle.

A psicanálise propõe um olhar menos persecutório e mais humano. A mente não é um espaço higienizado, feito apenas de boas intenções, delicadeza e altruísmo. Ela é vasta, contraditória, atravessada por impulsos amorosos e destrutivos, por desejos de cuidado e por fantasias violentas, por ternura e por crueldade. Carregamos, em potência, muitas possibilidades de ser. Ter uma ideia não equivale a querer realizá-la; imaginar não é o mesmo que agir.

O pensamento intrusivo revela, sobretudo, a liberdade e o desamparo da imaginação. O aparelho psíquico produz imagens, associações e cenas sem pedir autorização à moral, à biografia ou ao currículo ético do sujeito. Ele trabalha com restos de experiências, fragmentos de lembranças, impulsos primitivos, curiosidades infantis, medos antigos. Nesse sentido, essas ideias não dizem quem somos, mas do que nossa mente é capaz de produzir.

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Ninguém se livra definitivamente desse tipo de pensamento. A promessa de uma mente “limpa” é uma ilusão sedutora, mas impossível. O que pode mudar é a relação que estabelecemos com o que aparece dentro de nós. Quando o sujeito aprende a se conhecer, percebe que não é a soma de tudo o que imagina, mas o resultado das escolhas que faz, dos limites que constrói, dos valores que sustenta e dos vínculos que é capaz de cuidar.

Reconhecer a existência das próprias partes primitivas não nos torna mais perigosos; ao contrário, pode nos tornar mais responsáveis e menos ingênuos diante de nós mesmos. O verdadeiro risco não está em ter pensamentos estranhos, mas em acreditar que somos obrigados a obedecê-los ou em viver aterrorizados por eles.

Talvez uma das tarefas mais delicadas da vida psíquica seja aceitar que a mente contém muito mais do que gostaríamos de admitir e, ainda assim, escolher diariamente quem desejamos ser. É nesse intervalo, entre o que podemos imaginar e o que decidimos realizar, que se constrói algo essencial para a vida em sociedade: a possibilidade de transformação dos impulsos humanos em cuidado, criação e laço.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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