Quando a ajuda não é ajuda
Ajudar de fato é poder suportar a ausência de gratidão, a ingratidão, o afastamento e é permitir que o outro cresça
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Ajudar de fato é poder suportar a ausência de gratidão, a ingratidão, o afastamento e é permitir que o outro cresça
Sylvio do Amaral Schreiner 

Há gestos de ajuda que parecem nascer do amor, mas são, em essência, uma forma disfarçada de domínio. Ajudar o outro em excesso, antecipar-lhe os passos, resolver-lhe os impasses, pode parecer um ato de generosidade; no entanto, quando essa atitude se repete e se estrutura como modo de ser, revela algo mais profundo: o desejo de ser indispensável. Por trás de um aparente altruísmo, esconde-se a necessidade de controle e, frequentemente, algo que se alimenta da dependência alheia.
Na clínica, não é raro encontrarmos pessoas que se definem como “as que sempre ajudam”. São aquelas que se orgulham de ser o amparo, o esteio, o porto seguro. Mas esse papel, sustentado como uma virtude, pode esconder uma face sombria que é a recusa em lidar com a própria impotência. Ao manter o outro no lugar de fraco, o “ajudador” se protege da experiência de desamparo e reafirma a ilusão de poder. O vínculo, então, deixa de ser relação e torna-se encenação. O outro vira um personagem que confirma o papel de salvador de quem ajuda.
O narcisismo não se limita à autoexaltação evidente; ele também se manifesta nas formas sutis de idealização de si. Aquele que se oferece como o “bom”, o “necessário”, o “que não pode faltar” constrói um espelho em que se contempla com admiração. No entanto, esse espelho é frágil, pois depende do olhar e da fraqueza do outro para se manter íntegro. Por isso, o altruísmo que serve ao narcisismo é uma prisão. Tanto para quem ajuda quanto para quem é ajudado. O primeiro vive da necessidade de ser reconhecido, o segundo perde a capacidade de existir por si.
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Winnicott, psicanalista inglês, dizia que o verdadeiro cuidado é aquele que permite ao outro tornar-se independente. O que ajuda é aquele que, ao sustentar, também gradualmente se retira. O “ajudador compulsivo”, pelo contrário, não suporta a ideia de que o outro cresça, pois isso significaria perder o papel central que lhe garante identidade e valor. Seu gesto, então, não é de amor, mas de apropriação, pois ajuda para manter cativo, oferece para dominar, dá para não perder. No fundo, teme ser esquecido e, por isso, precisa ser necessário.
Essa forma de funcionar é uma defesa contra a própria fragilidade. Ao se colocar sempre como aquele que socorre, o sujeito se afasta do próprio sofrimento e nega sua necessidade de cuidado. Ajudar o outro torna-se uma forma de fugir de si mesmo. A atitude de onipotência encobre a dor de não poder tudo, de não ser suficiente, de não controlar a vida. Enfim, teme lidar com sua própria condição humana.
A psicanálise nos convida a pensar que o verdadeiro gesto de ajuda exige uma renúncia narcísica: a de não ser o centro, a de suportar a autonomia do outro. Ajudar de fato é poder suportar a ausência de gratidão, a ingratidão, o afastamento e é permitir que o outro cresça e, eventualmente, não precise mais de nós. Isso é o contrário do controle. É confiança na vida e na capacidade do outro de existir por si mesmo.
Em tempos em que a imagem de “quem cuida de todos” é amplamente valorizada, é preciso lembrar que nem todo cuidado é amor. Às vezes, o cuidado excessivo é uma forma de não deixar o outro viver. A psicanálise nos ajuda a reconhecer que a maturidade emocional está em poder ajudar sem aprisionar, amar sem possuir, e oferecer sem transformar o outro em espelho do próprio valor. O amor verdadeiro e a ajuda verdadeira libertam.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




