Vacas imaginárias
As ilusões que carregamos só nos prendem porque somos nós que nos interessamos por elas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
As ilusões que carregamos só nos prendem porque somos nós que nos interessamos por elas
Sylvio do Amaral Schreiner 

Conta uma antiga história budista que certo mestre, conhecido pela sabedoria e pelo hábito de transformar as cenas mais corriqueiras em matéria de ensino, foi ao mercado com seus discípulos. No meio do vaivém de vendedores e compradores, avistou um homem que puxava uma vaca por uma corda. Pediu que ele parasse, reuniu os discípulos ao redor e perguntou: quem está amarrado a quem, o homem à vaca ou a vaca ao homem? Os discípulos não hesitaram muito. Parecia evidente que a vaca estava presa ao homem, já que era ele quem a conduzia. O mestre sorriu, tirou uma tesoura das vestes e cortou a corda. A vaca disparou pelo mercado, e o homem saiu correndo atrás dela. Então o mestre disse que a situação havia se invertido, e que o mesmo se passava com eles e suas mentes: as ilusões que carregamos só nos prendem porque somos nós que nos interessamos por elas, e quando se afastam corremos atrás, adoecendo e tornando o espírito pesado.
É uma verdade incômoda, dessas que preferiríamos não ouvir. Muito do que nos aprisiona foi tecido por nós mesmos, ainda que sem saber. Freud percebeu cedo que o sofrimento psíquico raramente chega de fora como um raio em céu limpo; ele se organiza dentro, insiste, se repete, como se tivéssemos um estranho apego àquilo que nos faz mal. Desenhamos cenários internos catastróficos, antecipamos perdas que ainda não aconteceram, revivemos ofensas antigas como se fossem de hoje. Aos poucos, passamos a habitar nossas criações mais do que no mundo real. A ansiedade constante talvez seja isso: correr o dia inteiro atrás de vacas que só existem na nossa imaginação, ofegantes, sem nunca alcançá-las.
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O ponto delicado é que essas vacas não são simples bobagens. Elas carregam algo de nós, desejos antigos, medos que ninguém ajudou a pensar, marcas de uma história que pede sentido. Por isso não basta alguém de fora vir com a tesoura e cortar a corda. Se fosse assim, bastariam bons conselhos para que ninguém mais sofresse. O homem do mercado corre atrás da vaca porque acredita que sem ela perde alguma coisa essencial. Talvez perca mesmo, ao menos no início. Soltar-se de uma ilusão é também atravessar um luto.
O problema começa quando tomamos as vacas imaginadas por reais e nos afastamos daquilo que de fato importa, das pessoas, do trabalho, do próprio corpo, do tempo presente. Boa parte das adversidades que padecemos nasce desse envolvimento com nossas alucinações cotidianas. Quem sofre está, de algum modo, aprisionado, e a saúde mental tem muito a ver com uma liberdade que não se recebe pronta. Ela é conquistada devagar, na experiência de poder pensar aquilo que antes só podia ser vivido como angústia.
Na análise, esse trabalho não se faz por renúncia forçada nem por desprezo das próprias fantasias. Faz-se olhando para elas com curiosidade, perguntando de onde vieram, a quem servem, por que ainda parecem tão necessárias. É um percurso longo, que exige paciência, persistência e alguma tolerância consigo mesmo, porque recaímos, voltamos a segurar a corda, corremos de novo pelo mercado. Ainda assim, a cada vez que reconhecemos a vaca pelo que ela é, o passo fica um pouco mais leve. O caminho para ser livre é árduo, e talvez nunca termine de todo. Mas é o único que nos devolve à vida que de fato temos.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




