Aquilo que transborda e a beleza das lágrimas
Podemos escolher muitas coisas, mas não decidimos completamente o que irá nos comover
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segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Podemos escolher muitas coisas, mas não decidimos completamente o que irá nos comover
Sylvio do Amaal Schreiner 

Quando vemos alguém chorar, quase sempre pensamos que alguma coisa ruim aconteceu. Perguntamos se está tudo bem, imaginamos uma perda, uma decepção, um medo. Não é difícil entender por quê. Desde muito cedo, aprendemos a ligar as lágrimas à dor. Choramos quando caímos, quando nos sentimos desamparados, quando alguém vai embora. Para muita gente, essa associação se torna tão forte que o choro passa a carregar apenas um sentido negativo.
Porém, choramos por razões muito diferentes. Há lágrimas que aparecem diante do nascimento de um filho, de um reencontro há muito esperado, de uma notícia boa que já parecia impossível. Podemos chorar ouvindo uma música, olhando uma paisagem ou assistindo a uma cena de cinema que, sem sabermos direito por quê, nos atinge em cheio. Às vezes, um gesto simples de carinho faz os olhos se encherem d’água. Não há tristeza ali. Há apenas algo que foi sentido com força demais para continuar guardado.
Lágrimas não são uma expressão exclusiva da dor, mas uma resposta à intensidade. Elas surgem quando uma experiência cruza certo limiar. Pode ser o sofrimento, claro, mas também a alegria, o amor, o alívio, a gratidão, o assombro diante da beleza. O corpo encontra uma saída quando as palavras já não dão conta do que está acontecendo. Nesse momento, choramos porque fomos tocados por alguma coisa que não cabe inteiramente em nós.
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O amor também provoca lágrimas. Não apenas quando termina ou decepciona, mas quando acontece. Ser amado pode ser profundamente comovente. Alguém nos vê, nos reconhece, cuida de nós num ponto em que talvez nem soubéssemos precisar de cuidado. Isso pode trazer felicidade, mas também certo desconcerto. O amor atravessa defesas, desmonta por instantes a vigilância e nos deixa diante daquilo que temos de mais vulnerável. Nem sempre choramos porque algo dói. Às vezes choramos porque algo bom finalmente conseguiu chegar até nós.
Ainda assim, muita gente sente vergonha quando chora. Há homens que escutaram a vida inteira que choro é coisa de fraco. Há mulheres que seguram as lágrimas para não serem chamadas de instáveis, frágeis ou dramáticas. Em ambos os casos, aprende-se a esconder não apenas o sofrimento, mas qualquer emoção mais intensa. O rosto endurece, a respiração fica presa, os olhos desviam. E, se a lágrima aparece, vem logo um pedido de desculpas, como se ter sido afetado fosse uma espécie de falha.
Talvez o que incomode no choro seja justamente que ele revela que nem tudo em nós obedece à vontade. Podemos escolher muitas coisas, mas não decidimos completamente o que irá nos comover. Uma canção ouvida por acaso pode nos levar de volta a uma pessoa, a uma casa, a um tempo da vida que julgávamos esquecido. Um abraço pode desfazer em segundos uma contenção mantida durante meses. A lágrima aparece antes que possamos organizar uma explicação.
Isso não quer dizer que todos precisem chorar. Há pessoas que choram com facilidade; outras raramente conseguem. Existem dores que chegam aos olhos e dores que permanecem secas. Também há alegrias expansivas e alegrias silenciosas. Cada pessoa encontra seu modo de sentir. A dificuldade começa quando não chorar se transforma numa exigência, quando endurecer parece ser a única maneira de conservar alguma dignidade.
As lágrimas estão conosco antes mesmo das primeiras palavras. E continuam surgindo justamente quando falar se torna insuficiente. Não explicam o que sentimos, mas mostram que alguma coisa se moveu por dentro. Pode ser tristeza, medo, alegria, amor ou alívio. Muitas vezes, tudo isso ao mesmo tempo.
Chorar nem sempre é desabar. Em certas ocasiões, é o que nos impede de desabar. As lágrimas não dizem somente “estou sofrendo”. Podem dizer também: “isso me alcançou”, “isso importa para mim”, “eu não estava preparado para sentir tanto”. Há experiências que não encontram outro caminho. Quando já não cabem dentro de nós, escorrem pelos olhos.




