Trocamos a profundidade pela velocidade
A lentidão passou a ser tratada quase como um defeito. Tudo precisa acontecer agora: a resposta, a compra, a notícia, o entretenimento
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segunda-feira, 27 de julho de 2026
A lentidão passou a ser tratada quase como um defeito. Tudo precisa acontecer agora: a resposta, a compra, a notícia, o entretenimento
Sylvio do Amaral Schreiner 

Há uma frase do filosofo sul-coreano Byung-Chul Han que merece ser saboreada sem pressa: "Se quisermos continuar a ser humanos, temos de inventar outra forma de vida." Basta olhar ao redor para perceber que talvez descreva com precisão o momento em que vivemos. Nunca circulou tanta informação, nunca estivemos tão conectados, nunca recebemos tantos estímulos. Ainda assim, é difícil escapar da impressão de que estamos perdendo a capacidade de pensar com alguma profundidade.
A lentidão passou a ser tratada quase como um defeito. Esperar incomoda. Tudo precisa acontecer agora: a resposta, a compra, a notícia, o entretenimento. Se um vídeo demora alguns segundos para despertar interesse, seguimos adiante. Se um texto exige atenção, desistimos antes que ele tenha a chance de nos alcançar. Aos poucos, nos acostumamos a percorrer a realidade da mesma forma como percorremos a tela do celular, deslizando rapidamente, sem permanecer em lugar algum.
Han chama atenção justamente para essa perda. Em uma cultura fascinada pela velocidade, já não sabemos permanecer diante de uma ideia até que ela revele suas camadas. Reagimos antes de refletir. Comentamos antes de compreender. Consumimos uma novidade enquanto a anterior ainda nem chegou a produzir algum efeito dentro de nós.
O psiquismo, porém, não acompanha o ritmo das notificações. Ele obedece a outra temporalidade. Uma perda não encontra seu lugar de um dia para o outro. Uma decepção não se dissolve porque decidimos seguir em frente. Uma experiência importante precisa de tempo para ser transformada em experiência vivida, pensada e integrada.
Freud compreendeu isso muito cedo. O que modifica uma pessoa raramente acontece por causa de uma explicação brilhante ou de um conselho oportuno. A transformação depende de um trabalho interno que não aceita atalhos. Entre aquilo que vivemos e aquilo que conseguimos compreender existe um intervalo indispensável. Não é um tempo perdido; é nele que algo realmente acontece.
Pensar não é simplesmente produzir respostas. A capacidade de pensar nasce quando suportamos permanecer por algum tempo diante da dúvida, da frustração e daquilo que ainda não faz sentido. Quem precisa de respostas imediatas costuma produzir certezas. Quem suporta esperar abre espaço para que um pensamento novo apareça.
Talvez seja justamente essa espera que esteja desaparecendo. Sabemos muito sobre a vida dos outros, acompanhamos opiniões a cada minuto, mas encontramos cada vez menos ocasiões para escutar o que se passa dentro de nós. O excesso de estímulos externos acaba funcionando como um ruído permanente, tornando difícil qualquer contato mais profundo com a própria experiência.
O verdadeiro alcance da provocação de Byung-Chul Han, que diz para inventar outra forma de vida, talvez não dependa de novas tecnologias nem de uma eficiência ainda maior. Talvez comece quando recuperamos a capacidade de permanecer diante de nós mesmos, sem a necessidade de escapar imediatamente para a próxima distração.
Infelizmente, trocamos a profundidade pela velocidade. Uma árvore não cresce porque alguém apressa seus galhos. Ela amadurece obedecendo ao ritmo da própria vida. Com a mente acontece algo semelhante. Tudo o que nela ganha consistência precisa de profundidade.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


