Tigela rachada não segura água
Há mentes que, como uma tigela rachada, não conseguem reter aquilo que recebem de bom; o carinho escorre, o reconhecimento desaparece
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segunda-feira, 15 de junho de 2026
Há mentes que, como uma tigela rachada, não conseguem reter aquilo que recebem de bom; o carinho escorre, o reconhecimento desaparece
Sylvio do Amaral Schreiner 

Existe uma expressão antiga que diz: “tigela rachada não segura água”. Pode parecer apenas uma observação simples sobre um objeto danificado. Porém, ela fala muito sobre a vida emocional de muitas pessoas. Há mentes que, como uma tigela rachada, não conseguem reter aquilo que recebem de bom. O carinho escorre. O reconhecimento desaparece. Os momentos de paz duram pouco. As experiências nutritivas parecem não deixar marcas internas consistentes. Tudo vaza.
Enquanto isso, as angústias permanecem. O medo encontra abrigo. A insegurança cria raízes profundas. Como se a mente tivesse enorme capacidade para armazenar sofrimento, mas pouca possibilidade de conservar aquilo que traz vitalidade.
Muitas pessoas vivem assim sem perceber. Recebem amor, mas não conseguem senti-lo de maneira duradoura. Conquistam algo importante, mas logo voltam à sensação de vazio. Vivem experiências bonitas, porém rapidamente retornam ao sentimento de insuficiência. Não porque estejam fingindo ou porque sejam ingratas, mas porque existe uma espécie de rachadura interna que impede a experiência boa de permanecer viva dentro delas.
A psicanálise compreende que nossa mente não nasce pronta para sustentar a vida emocional. Ela vai sendo construída ao longo das relações humanas. Um bebê que é acolhido, compreendido e cuidado vai pouco a pouco desenvolvendo uma capacidade interna de guardar experiências boas. Cria dentro de si um espaço onde o afeto, a confiança e a esperança podem sobreviver mesmo nos momentos difíceis.
Só que quando alguém cresce em ambientes marcados por medo, instabilidade, rejeição ou excesso de tensão emocional, essa construção pode ficar comprometida. A mente passa então a funcionar mais voltada para sobreviver do que para viver. Em vez de repousar, permanece alerta. Em vez de sonhar, calcula perigos. Em vez de criar, tenta controlar. Assim, a vida deixa de circular internamente de maneira fértil.
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Uma mente rachada não é uma mente fraca. Muitas vezes é justamente o contrário: foi uma mente obrigada a suportar mais do que podia. O problema é que sobreviver continuamente cobra um preço alto. A pessoa passa a desconfiar da tranquilidade, a estranhar a alegria e até a sabotar situações boas porque, no fundo, não acredita que elas possam existir.
É como alguém tentando encher uma tigela com água enquanto ela escorre silenciosamente pelas fissuras. Não importa quanto se coloque ali; nunca parece suficiente. Por isso tantas pessoas vivem buscando mais reconhecimento, mais distrações, mais relações, mais consumo, mais respostas rápidas. Não porque sejam excessivamente ambiciosas, mas porque sentem uma sede emocional que nunca se aquieta.
Talvez uma das tarefas mais difíceis da vida seja justamente reparar essas rachaduras internas. Não para nos tornarmos invulneráveis, mas para conseguirmos sustentar um pouco mais daquilo que faz bem. Conseguir permanecer numa experiência boa sem imediatamente destruí-la com medo, culpa ou desconfiança. Aprender a acolher a vida dentro de si.
Uma mente saudável não é aquela que nunca sente ansiedade, tristeza ou angústia. É aquela que, apesar disso, ainda consegue guardar beleza, afeto, esperança e sentido. Uma mente capaz de reter a água da vida sem deixá-la escapar o tempo todo pelas fissuras invisíveis da alma.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




