A parte que não ouvimos
Entre o que uma pessoa disse e aquilo que a outra escutou, às vezes existe uma distância enorme
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segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Entre o que uma pessoa disse e aquilo que a outra escutou, às vezes existe uma distância enorme
Sylvio do Amaal Schreiner 

Há uma frase que resume, com algum exagero e muita verdade, um dos nossos piores hábitos: ouvimos pela metade, entendemos um quarto, reagimos o dobro e lembramos para sempre. Basta observar uma discussão comum para perceber como isso acontece. Entre o que uma pessoa disse e aquilo que a outra escutou, às vezes existe uma distância enorme. E esse espaço vazio raramente permanece vazio. Nós o preenchemos com desconfianças, medos, ressentimentos e histórias antigas.
Escutar dá mais trabalho do que parece. Enquanto o outro ainda fala, já estamos pensando no que responder. Uma palavra nos incomoda, um tom de voz parece arrogante, uma expressão do rosto soa como desprezo. A partir desse detalhe, montamos uma história inteira e quase todo o restante se perde. Em vez de tentar compreender o que está sendo dito, procuramos uma acusação escondida, uma falha no argumento ou alguma confirmação daquilo que já pensávamos sobre aquela pessoa.
É por isso que duas pessoas podem sair da mesma conversa contando episódios tão diferentes. Uma acredita que fez um comentário banal; a outra se sentiu diminuída. Uma tentou explicar por que precisava ficar sozinha; a outra entendeu que estava sendo rejeitada. Nenhuma delas precisa estar mentindo. Cada uma ouviu a conversa atravessada pela própria história.
Quem foi muito criticado pode encontrar reprovação até numa pergunta simples. Quem sofreu abandonos talvez perceba sinais de afastamento onde havia apenas cansaço ou necessidade de silêncio. Há palavras que, ditas hoje, acordam sentimentos muito mais antigos. A reação parece destinada à pessoa que está diante de nós, mas parte dela pertence a outras cenas, outras vozes, outros tempos.
Quase nunca percebemos isso no momento. A emoção chega depressa e com uma convicção impressionante. Interrompemos, elevamos o tom, mandamos uma mensagem agressiva ou fazemos uma acusação difícil de recolher depois. Talvez, horas mais tarde, venha a dúvida: será que era mesmo aquilo? Mas nem sempre estamos dispostos a perguntar. Admitir que escutamos mal pode ser mais incômodo do que continuar acreditando que fomos ofendidos.
Então guardamos o episódio. Não a conversa inteira, naturalmente. Guardamos uma frase, às vezes apenas duas ou três palavras. Repetimos esse fragmento em pensamento até que ele adquira o valor de uma prova: prova de que o outro é egoísta, ingrato, indiferente. Com o passar do tempo, já não lembramos direito do que veio antes ou depois, nem de como nós mesmos participamos daquela situação. Permanece apenas a parte que feriu.
A memória não é uma gravação guardada intacta em algum lugar da mente. Toda vez que recordamos um acontecimento, também o reorganizamos. Alguns detalhes desaparecem, outros ganham uma importância que talvez não tivessem. O ressentimento costuma fazer esse trabalho conservando a dor e apagando o contexto.
É assim que podemos nos tornar ignorantes mesmo quando temos certeza de que entendemos tudo. Reagimos ao efeito que as palavras tiveram sobre nós e imaginamos, a partir daí, conhecer a intenção de quem as disse. Mas uma coisa não revela necessariamente a outra. Posso ter me sentido desprezado sem que o outro tenha desejado me desprezar. Meu sentimento é real; minha interpretação, porém, pode estar errada.
Escutar melhor exige tempo. Às vezes, uma pergunta simples muda toda a conversa: “Foi isso mesmo que você quis dizer?” Em outras ocasiões, convém esperar a raiva diminuir antes de responder. Não porque a raiva seja ilegítima, mas porque, no calor do momento, ela costuma falar demais.
Isso também não significa aceitar ofensas. Existem palavras deliberadamente cruéis, desprezos inequívocos e situações que exigem firmeza. Mas uma resposta firme não precisa nascer de uma explosão. Quanto melhor compreendemos o que aconteceu, mais precisa pode ser nossa posição.
Ouvir por inteiro não garante concordância. Garante apenas, e isso já é muito, que tentaremos responder ao que o outro disse e não somente ao que nossas feridas escutaram.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


