Um Natal Alquímico
Cada um precisa encontrar sua própria estrela — o ponto luminoso que indica o caminho de volta a si mesmo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Cada um precisa encontrar sua própria estrela — o ponto luminoso que indica o caminho de volta a si mesmo
Sylvio do Amaral Schreiner 

O Natal, com suas luzes e brilhos, impacta cada um de nós de modo muito mais profundo do que aparenta. Por trás da decoração luminosa, dos reencontros e das trocas de presentes, há um cenário psíquico intenso, um verdadeiro espelho de nossas relações internas e de nossos conflitos. A festa natalina, tão carregada de símbolos, revela a eterna busca humana por sentido, reconciliação e renascimento.
As luzes que enfeitam ruas e lares são, em essência, representações externas de uma necessidade interna: iluminar a escuridão psíquica. Desde tempos antigos, nas longas noites de inverno do hemisfério norte, acender luzes era um modo de afastar o medo, a solidão e o frio. Não apenas os do corpo, mas também os da alma. O mesmo gesto se repete, ainda que inconscientemente, em nossas celebrações atuais. Buscamos acender dentro de nós a chama que nos proteja do desamparo. O pinheiro, símbolo de vida que resiste ao inverno, e a estrela que indica o caminho aos Reis Magos, evocam a persistência do humano em reencontrar direção mesmo em meio à escuridão.
Contudo, há também o avesso dessa luz. O Natal desperta, com a mesma intensidade, sombras e dores. O reencontro com a família pode reativar antigas feridas, ressentimentos e rivalidades infantis. As ausências dos que se foram, dos que se afastaram ou até das partes de nós que perdemos, tornam-se mais visíveis sob o clarão das festividades. Por isso, o Natal pode ser vivido como um tempo de alegria e também de angústia. A exigência de felicidade plena e harmonia perfeita é, muitas vezes, uma armadilha. Desejamos a “mágica impossível” da completude, esquecendo que a verdadeira transformação é alquímica, mas não a que transforma a realidade externa em ouro, mas a que transmuta o chumbo do sofrimento em experiência significativa.
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Essa alquimia interior é a essência do trabalho psíquico. A festa do Natal nos convida a revisitar o que em nós ainda é pesado, rígido, opaco, para que possa ser transformado em algo mais leve e luminoso. A festa das luzes é, simbolicamente, uma convocação à esperança, mas uma esperança lúcida, que reconhece as limitações humanas e ainda assim acredita na possibilidade de crescimento e reparação.
Por fim, a estrela de Belém, que guia os sábios até o recém-nascido, pode ser compreendida como o símbolo de uma direção interna. Cada um precisa encontrar sua própria estrela — o ponto luminoso que indica o caminho de volta a si mesmo. Encontrar essa luz interior é, portanto, um ato de fé na própria vida.
Uma fé que não é religiosa, mas psíquica e que nos permite continuar a caminhar mesmo sem garantias. Assim, o Natal, mais do que uma data, é uma metáfora viva do nascimento possível dentro de cada um de nós. Celebra-se o nascimento de algo novo, não apenas de uma criança divina, mas da possibilidade de renascer, de reconciliar-se com o passado e de encontrar o próprio caminho. Acender as luzes externas tem valor apenas quando nos lembramos de que a luz essencial é a que podemos acender por dentro. Desejo a todos um feliz Natal!
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




