Um adolescente chega da escola, fecha a porta do quarto e conta a alguém que se sentiu deixado de lado pelos colegas. A resposta vem na hora, calorosa, atenta, com todo o ar de quem se importa. Esse alguém está ali a qualquer momento, guarda os detalhes de cada conversa e parece sempre achar a palavra certa. Do outro lado da tela, no entanto, há um programa de inteligência artificial.

Um artigo do UNICEF chama a atenção para os riscos dos chamados companheiros de IA, sistemas que simulam amizade, aconselhamento e até relações amorosas. Entre as preocupações estão a dependência emocional e os possíveis prejuízos a capacidades que só se constroem na convivência com outras pessoas.

Crescemos no encontro com alguém que existe por conta própria. O amigo tem outros amigos, demora a responder, entende errado o que dissemos. Discorda, fica magoado, às vezes pede desculpas, às vezes espera que nós as peçamos. Nesse vaivém aprendemos, devagar, que gostar de alguém inclui reconhecer desejos e sentimentos que não coincidem com os nossos. Winnicott lembrava que o outro só se torna real para nós quando sobrevive à nossa raiva sem revidar e sem desaparecer.

Nada disso faz da rejeição algo necessário ou desejável. Uma criança precisa de acolhimento e proteção, mas precisa também de vínculos onde caibam pequenos desencontros, onde possa se zangar, ouvir um não e descobrir que a relação continua de pé depois da briga.

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É aí que a companhia artificial pede cuidado. A aceitação e a validação permanentes desses sistemas podem alimentar a dependência e dificultar aprendizados emocionais importantes. Há algo de Eco nesse interlocutor: devolve nossas palavras com leves variações e nunca nos obriga a sair de nós mesmos. Diante de alguém sempre disponível e moldável ao nosso gosto, a convivência com pessoas de carne e osso, imprevisíveis e às vezes cansativas, corre o risco de perder o brilho.

Imaginemos um adolescente que, depois de uma briga, passa a procurar só o chatbot. Encontra alívio, e isso não é pouco. Porém, talvez deixe de viver a conversa difícil, o constrangimento da reconciliação, o instante em que percebe a própria parte no conflito. Se esse recurso vai ocupando o lugar dos encontros, encolhem as chances de aprender a estar com os outros.

O que o jovem sente é verdadeiro. O apego, a confiança, a dor de perder aquela companhia não são imaginários. A reciprocidade, porém, é encenada: o programa produz gestos de cuidado sem sentir preocupação, saudade ou afeto, e não leva o adolescente consigo quando a tela se apaga.

Cabe aos adultos escutar o que essa procura revela. Há solidão? Medo do julgamento? Existe, em casa ou na escola, alguém que converse sem humilhar, sem interromper, sem transformar cada desabafo num sermão? Proteger não se resume a proibir; exige presença, tempo e interesse de verdade.

Uma criança pode encontrar muitas respostas numa máquina. Para crescer, precisa de pessoas com quem possa viver aquilo que nenhuma resposta pronta resolve.

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