Sobre os demônios internos
Em vez de declarar guerra ao que sentimos, talvez seja mais útil perguntar de onde isso veio
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Em vez de declarar guerra ao que sentimos, talvez seja mais útil perguntar de onde isso veio
Sylvio do Amaral Schreiner 

Há expressões que, de tanto serem repetidas, acabam dispensando qualquer reflexão. "Lutar contra os próprios demônios" é uma delas. A imagem é sedutora: dentro de cada um haveria um inimigo oculto que precisa ser vencido. É uma metáfora poderosa e funciona bem em romances, filmes e discursos motivacionais. O problema é que a vida psíquica raramente se organiza como uma guerra entre o bem e o mal.
Todos nós carregamos aspectos que preferiríamos não ter. Há momentos de inveja, de raiva, de ciúme, de medo, de ressentimento. Existem impulsos que podem nos colocar em dificuldade e comprometer nossos relacionamentos, nossas escolhas e até nossa saúde. Isso faz parte da condição humana. O equívoco começa quando imaginamos que essas partes poderiam simplesmente ser eliminadas.
A experiência clínica aponta em outra direção. Em vez de declarar guerra ao que sentimos, talvez seja mais útil perguntar de onde isso veio. Muitas características que hoje nos fazem sofrer já tiveram uma função importante. A desconfiança pode ter sido a forma encontrada por alguém para sobreviver em um ambiente pouco confiável. O controle excessivo talvez tenha servido para reduzir uma angústia que parecia insuportável. Até a agressividade, em determinadas circunstâncias, pode ter representado uma tentativa de preservar a própria existência.
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Quando olhamos para essas partes apenas como inimigas, deixamos de perceber a história que elas carregam. Compreender não significa aprovar. Também não significa transformar qualquer comportamento em algo aceitável. Significa reconhecer que existe um percurso até ali. E compreender esse percurso costuma ser muito mais transformador do que condená-lo.
Há uma curiosa ironia nisso tudo. Quanto maior o esforço para expulsar certos sentimentos, mais eles parecem encontrar maneiras de voltar. Quem decide que nunca mais sentirá inveja, medo ou raiva normalmente não deixa de experimentá-los. Apenas perde a capacidade de reconhecê-los. Eles continuam existindo, mas aparecem disfarçados: numa dor física, numa explosão desproporcional, numa crítica constante aos outros ou numa tristeza sem nome.
Nossa vida psíquica tem menos a ver com vencer uma batalha e mais com aprender a administrar uma casa onde moram hóspedes muito diferentes entre si. Alguns são agradáveis e discretos. Outros fazem barulho, criam confusão e exigem atenção. Expulsá-los não está ao nosso alcance. Aprender a não lhes entregar a direção da casa, isso sim.
Conhecer a própria agressividade é mais seguro do que acreditar que ela não existe. Reconhecer a inveja costuma ser menos perigoso do que vestir a fantasia de alguém permanentemente generoso. Admitir a fragilidade exige mais força do que sustentar a aparência de quem nunca vacila.
Donald Winnicott, psicanalista inglês, observava que o amadurecimento envolve integrar aspectos contraditórios da personalidade sem precisar amputar nenhum deles. Essa talvez seja uma das tarefas mais complexas da vida. Não nos tornamos pessoas melhores porque eliminamos nossos conflitos. Tornamo-nos mais inteiros quando deixamos de desperdiçar energia fingindo que eles não existem.
O verdadeiro desafio não é derrotar os chamados demônios internos. É conhecê-los suficientemente bem para que deixem de governar nossa vida. Afinal, não somos feitos apenas das partes que admiramos em nós mesmos. Também somos aquilo que preferiríamos esconder. E quanto menos precisarmos fugir dessa realidade, maiores serão as chances de viver com liberdade e de estabelecer uma relação mais pacífica com quem realmente somos.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




