Quase todo mundo acredita que o grande desafio de existir é lidar com a dor constantemente. E não deixa de ser verdade. O sofrimento nos obriga a crescer, exige recursos internos, muda a forma como vemos o mundo. Mas existe uma dificuldade menos evidente, sobre a qual se fala muito pouco: a de suportar o que é bom.

É fácil perceber isso no cotidiano. Duas pessoas entram no mesmo ambiente. Uma nota imediatamente a tinta descascada, a bagunça, o defeito. A outra percebe a luz da manhã atravessando a janela, uma planta bem cuidada, o cheiro do café. O lugar é o mesmo. O que muda é a disposição interna de quem olha.

Nas relações acontece algo semelhante. Há pessoas que guardam durante anos uma palavra áspera, mas esquecem rapidamente inúmeros gestos de carinho. Um erro ganha um peso enorme, enquanto muitos acertos quase desaparecem da memória. O sofrimento parece criar raízes com facilidade; o bem, não.

A experiência clínica mostra que isso está longe de ser raro. Há quem receba um elogio e imediatamente o desqualifique. Alguém vive um período de tranquilidade e começa a esperar que algo ruim aconteça. Quem encontra um relacionamento saudável e, sem perceber, passa a testá-lo até colocá-lo em risco. Não é uma escolha consciente. Muitas vezes, é justamente o que faz bem que desperta ansiedade.

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A psicanalista Melanie Klein lançou luz sobre esse fenômeno ao mostrar que o desenvolvimento emocional depende da capacidade de formar, dentro de si, uma experiência estável de amor, cuidado e confiança. Esse patrimônio interno não nasce pronto. Ele vai sendo construído desde os primeiros vínculos e precisa sobreviver às inevitáveis frustrações da vida.

Quando isso não acontece de maneira suficiente, algo curioso pode surgir. Em vez de preservar aquilo que faz bem, a mente passa a atacá-lo. Não de forma deliberada, mas quase automática. O elogio é desfeito por uma autocrítica. A amizade é colocada sob suspeita. A felicidade parece boa demais para ser verdadeira. A tranquilidade desperta inquietação. Como se aquilo que poderia nutrir a vida precisasse ser estragado antes que desaparecesse por conta própria.

É nesse contexto que Klein descreve a inveja em seu sentido mais profundo. Não apenas o desejo de possuir o que pertence ao outro, mas a dificuldade de suportar que exista algo bom. Quando o bem provoca mais incômodo do que gratidão, a tendência passa a ser diminuí-lo, desacreditá-lo ou destruí-lo. O ataque não é dirigido apenas às pessoas. Muitas vezes volta-se contra as próprias possibilidades de viver melhor. Ficamos cegos àquilo que nos é bom e valorizamos a lamentação.

Talvez por isso a reclamação encontre tanta acolhida. Ela aproxima as pessoas, gera identificação e quase nunca causa constrangimento. Em contrapartida, falar de uma alegria, de uma conquista ou de uma relação feliz frequentemente desperta comparações, ironias ou um silêncio desconfortável. Parece existir uma estranha facilidade para compartilhar o sofrimento e uma dificuldade igualmente grande para conviver com o bem.

Isso não significa ignorar a dor. Há sofrimentos que precisam ser vistos, acolhidos e elaborados. O problema surge quando eles ocupam todo o espaço da vida. Aos poucos, a pessoa perde a capacidade de registrar aquilo que continua florescendo apesar das dificuldades. O que fazemos quando a vida nos oferece algo bom? Conseguimos guardá-lo dentro de nós ou sentimos necessidade de diminuí-lo, desconfiar dele ou estragá-lo?

A resposta a isso diz muito sobre nossa saúde emocional. Porque uma mente que não consegue preservar suas boas experiências vive como alguém que enche um vaso de água, mas o fura logo em seguida. Nunca lhe falta água. Falta-lhe um recipiente capaz de conservá-la. Uma das tarefas mais delicadas da vida seja justamente essa de construir dentro de nós um lugar onde o amor, a beleza, a gratidão e a esperança possam permanecer sem precisar ser atacados. Só assim o bem deixa de ser uma ameaça e passa, finalmente, a ser uma morada

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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