Há uma frase que gosto muito: “se uma árvore for transformada em lenha, ela queimará e produzirá calor, mas nunca mais será capaz de gerar flores nem frutos”. Essa frase diz muito sobre os relacionamentos amorosos que são dominados pelas paixões. Há paixões que se parecem com essa fogueira. Ardem com uma intensidade impressionante, aquecem tudo ao redor, mas acabam consumindo a própria matéria de que são feitas.

Existe uma ideia bastante difundida de que quanto maior a paixão, maiores as chances de um relacionamento dar certo. A experiência, entretanto, mostra outra coisa. Muitos casais que começaram inseparáveis, convencidos de que haviam encontrado o amor de suas vidas, terminam anos depois incapazes de trocar uma palavra sem ressentimento. Em alguns casos, o amor dá lugar a uma hostilidade que surpreende até quem acompanhou a história desde o começo.

A paixão costuma nascer da idealização. O outro parece extraordinário, quase sem falhas. Suas diferenças encantam, seus defeitos parecem detalhes irrelevantes. Vive-se a impressão de que, finalmente, alguém chegou para preencher um vazio antigo ou responder a perguntas que nem sabíamos formular.

Nenhuma relação permanece nesse estado para sempre. Mais cedo ou mais tarde, a realidade se impõe. O parceiro deixa de ser uma figura imaginada e passa a existir como realmente é: alguém com limites, contradições, fragilidades e desejos próprios. Esse costuma ser o momento decisivo de uma história de amor.

Alguns casais conseguem atravessar essa passagem. Descobrem que amar não é continuar vendo um ser perfeito, mas aprender a gostar de uma pessoa real. Outros, porém, não suportam a perda da ilusão. Quanto mais alta foi a idealização, mais dura costuma ser a queda. O encanto desaparece e, em seu lugar, instala-se a sensação de decepção. Aquele que antes parecia único passa a carregar a culpa por tudo aquilo que não aconteceu.

Leia mais:

É curioso perceber como amor e ódio podem caminhar tão próximos. Não porque sejam iguais, mas porque ambos envolvem um enorme investimento afetivo. Quando a paixão não encontra espaço para amadurecer, a energia que antes sustentava a admiração pode alimentar acusações, disputas e ressentimentos. O vínculo não desaparece; apenas muda de sinal.

Geralmente, não nos apaixonamos apenas pela pessoa que está diante de nós, mas pela versão que nossa imaginação constrói dela. Projetamos expectativas, necessidades e antigos desejos. Quando essa imagem desmorona, parece que fomos traídos. Muitas vezes, porém, quem ruiu foi a fantasia, não necessariamente a relação.

Talvez seja por isso que os vínculos mais sólidos raramente sejam os mais explosivos. Eles são aqueles em que a paixão aceitou perder um pouco de seu brilho para ganhar profundidade. O incêndio dos primeiros meses não desaparece por completo, mas se transforma no fogo de uma lareira. Menos espetacular, porém capaz de atravessar o inverno.

Volto, então, à imagem da árvore. Quem a reduz à lenha desfruta de um calor imediato, intenso e breve. Quem cuida dela precisa de mais paciência, mas um dia encontra sombra, flores e frutos. Os amores seguem uma lógica parecida. A paixão pode inaugurar uma história. Só não pode ser a única coisa que a sustenta.

¨¨¨¨¨

A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

mockup