Há pessoas que passam a vida emocional inteira atrás de muralhas. Tornam-se especialistas em evitar riscos afetivos, decepções e vulnerabilidades. Aprendem a desconfiar, a não se entregar, a não depender, a não pedir ajuda, a não demonstrar necessidade. Muitas vezes são admiradas por parecerem fortes, autossuficientes e “blindadas”. Mas existe uma diferença importante entre força emocional e endurecimento psíquico. Nem toda proteção protege de fato. Algumas apenas isolam.

Os mecanismos de defesa são necessários à vida mental. Todos nós os utilizamos. Sem eles ficaríamos excessivamente expostos às dores, frustrações e angústias inevitáveis da existência. O problema começa quando a defesa deixa de ser um recurso temporário e se transforma numa maneira permanente de viver. Nesse ponto, a pessoa já não se protege apenas do sofrimento: ela passa também a se proteger do vínculo, do encontro e da intimidade.

Muitos acreditam que precisar de alguém é sinal de fraqueza. Tentam construir uma vida onde precisem o mínimo possível dos outros. Só que essa independência absoluta é uma fantasia. O ser humano é inevitavelmente relacional. Não existimos sozinhos. Um marido só é marido porque existe uma esposa. Uma mãe só se torna mãe porque existe um filho. Um amigo depende da existência de outro amigo. Até nossa identidade mais íntima se constrói nas relações que vivemos ao longo da vida.

Precisar do outro, porém, assusta profundamente. Porque o outro não é um objeto sob controle. O outro possui desejos próprios, limites próprios, ausências. Pode frustrar, decepcionar, afastar-se, mudar de ideia ou simplesmente partir. Amar alguém significa aceitar uma condição inevitável de vulnerabilidade. Quem ama corre o risco de sofrer. E algumas pessoas, marcadas por experiências emocionais difíceis, decidem que não querem mais correr esse risco.

Então começam a erguer defesas cada vez mais sofisticadas. Ironia no lugar de sinceridade. Distanciamento no lugar de intimidade. Controle no lugar de espontaneidade. Autossuficiência no lugar de troca. Tornam-se pessoas “fortes”, mas incapazes de descansar verdadeiramente em um vínculo. Precisam manter sempre uma distância segura. Como alguém que observa o mar da areia porque teme ser arrastado pelas ondas.

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O paradoxo é que, ao tentar evitar o sofrimento, acabam produzindo outra forma de dor: a solidão emocional. Uma vida excessivamente protegida torna-se também empobrecida. Sem trocas profundas, sem dependências afetivas legítimas, sem a experiência de ser sustentado emocionalmente por alguém. Há uma aridez silenciosa nisso. Porque a vida psíquica cresce justamente nos encontros humanos. É no vínculo que descobrimos partes de nós mesmos que jamais apareceriam no isolamento.

Ficar só, de certo modo, é mais seguro. Sozinho, ninguém nos abandona porque já nos retiramos antes. Ninguém nos decepciona porque não permitimos proximidade suficiente. Ninguém nos invade porque construímos muros altos demais. Mas também ninguém verdadeiramente nos alcança. E existe um custo alto em jamais ser encontrado pelo olhar afetivo de outro ser humano.

A maturidade emocional não está em não precisar de ninguém, mas em suportar o fato de que precisamos. Aceitar essa dependência relativa não diminui ninguém. Pelo contrário. Reconhecer que a vida se constrói em relações é reconhecer algo profundamente humano. Somos feitos de encontros, de vínculos, de trocas, de presenças. E embora amar torne a vida mais arriscada, também é o que a torna mais viva.

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