Saúde mental é muito mais do que mero bem-estar
Cuidar da mente não é buscar uma eterna sensação de conforto, mas aceitar o trabalho silencioso de tornar-se alguém para si mesmo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de março de 2026
Cuidar da mente não é buscar uma eterna sensação de conforto, mas aceitar o trabalho silencioso de tornar-se alguém para si mesmo
Sylvio do Amaral Schreiner 

Nas últimas décadas, aprendemos a falar do corpo com uma desenvoltura inédita. Sabemos quantos passos dar por dia, quanto de proteína ingerir, qual exercício fortalece qual músculo, quais exames devem ser feitos em cada fase da vida. Há médicos, nutricionistas, educadores físicos, aplicativos e relógios inteligentes ensinando, monitorando, corrigindo. O corpo tornou-se um território relativamente mapeado, quase domesticado pelo saber técnico.
Quando, porém, o assunto é saúde mental, instala-se um certo desconcerto. Muitos perguntam: “o que exatamente devo fazer para ter saúde emocional?”. Espera-se uma lista, um protocolo, um treino semelhante ao da academia. Diante da ausência desse manual, surge frustração e confusão. Não raro, saúde mental é reduzida a uma sensação vaga de bem-estar, de leveza permanente, de felicidade estável, como se fosse possível viver sem conflitos, perdas, invejas, raivas ou ambivalências.
A psicanálise propõe uma compreensão muito diferente e, talvez por isso mesmo, menos sedutora. Ter saúde mental não é estar sempre bem, mas ser capaz de viver com alguma inteireza aquilo que se está vivendo. É poder reconhecer os próprios sentimentos, inclusive os mais contraditórios, sem precisar expulsá-los do campo da consciência ou transformá-los imediatamente em sintomas corporais, atos impulsivos ou diagnósticos apressados.
Leia mais:
Enquanto o corpo responde relativamente bem a prescrições externas, a vida psíquica não se organiza por conselhos. Ninguém aprende a amar, a perder, a escolher, a suportar frustrações ou a lidar com o próprio ódio seguindo passos dados por um profissional. Esses aprendizados se constroem lentamente, nos vínculos, nas decepções, nas reparações possíveis, nas experiências de ser visto e também de não ser.
Por isso, a saúde mental está menos ligada a um estado de conforto e mais a um processo de amadurecimento. Trata-se de desenvolver uma certa capacidade interna de continência: conter impulsos sem esmagá-los, suportar angústias sem ser dominado por elas, reconhecer limites sem vivê-los como catástrofe. Trata-se, sobretudo, de tornar-se progressivamente responsável por si mesmo, por suas escolhas, por suas repetições, por seus modos de amar e de sofrer.
Essa responsabilidade se constrói quando o sujeito pode transformar experiências emocionais brutas em algo pensável, simbolizável, narrável. Quando pode, pouco a pouco, apropriar-se da própria história, em vez de apenas repeti-la. Nesse sentido, saúde mental não é ausência de sintomas, mas presença de um eu suficientemente vivo para perguntar por eles.
Talvez o desconforto contemporâneo diante desse tema venha do fato de que preferimos soluções rápidas, mensuráveis, visíveis. Queremos saber “quanto”, “quando”, “como”. A mente, entretanto, não se deixa medir em gramas, quilômetros ou batimentos. Ela se revela na maneira como alguém atravessa uma perda, sustenta um desejo, lida com a solidão, suporta não ser tudo para o outro, aceita não controlar o mundo.
Reduzir a saúde mental a bem-estar é empobrecê-la. Há momentos decisivos da vida em que não há bem-estar algum, e ainda assim pode haver crescimento, elaboração, transformação dos impulsos humanos em algo que favoreça a possibilidade da vida se expandir.
Cuidar da mente, portanto, não é buscar uma eterna sensação de conforto, mas aceitar o trabalho silencioso de tornar-se alguém para si mesmo. Um trabalho sem manual, sem atalhos garantidos, mas que, quando acontece, amplia o potencial da mente e permite que os sintomas e conflitos que todos experimentamos e que podem nos adoecer encontrem outras saídas, mais criativas, mais humanas, mais vivas.
¨¨¨¨¨
A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




