Todo mundo quer paz. Se você perguntar na rua, a resposta é quase unânime: queremos um mundo mais calmo, menos violência, discussões mais leves e uma sociedade acolhedora. O desejo coletivo é legítimo, mas ele esbarra em um paradoxo incômodo. Desejamos um mundo pacífico enquanto carregamos, no peito, uma usina em plena atividade de pequenas e grandes turbulências diárias. Vivemos em um estado de guerra interna constante, mas esperamos que o lado de fora amanheça em trégua.

Essa dinâmica revela um mecanismo clássico da nossa mente que é a projeção. É muito mais fácil apontar o caos do trânsito, a agressividade das redes sociais ou a intolerância do vizinho do que encarar o próprio barulho interno. Buscamos no mundo a harmonia que nos falta. O problema é que essa busca se torna uma armadilha. Esperamos que o ambiente mude para que, finalmente, possamos relaxar. Buscamos a calmaria fora, como se ela fosse um produto self-service disponível na prateleira do mundo.

A verdade, nua e crua, é um pouco mais exigente. A paz não cai do céu, não vem por decreto e não depende do comportamento do outro. Ela é uma construção que começa do lado de dentro.

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E o que significa estar em paz consigo mesmo? Não tem a ver com ausência de problemas ou com uma positividade forçada, que aliás, hoje em dia é tão comum. Significa, antes de tudo, fazer as pazes com as próprias imperfeições. É conseguir olhar para as nossas ansiedades, nossos medos, sem começar uma nova batalha interna para expulsá-los. Estar em paz é tolerar o próprio barulho sem se desesperar. Quando paramos de guerrear contra quem nós somos, a turbulência começa a ceder espaço para o discernimento.

Esse movimento gera um efeito colateral poderoso e silencioso. Nós transmitimos aquilo que somos, não aquilo que fingimos ser. Quando uma pessoa consegue, genuinamente, cultivar a calmaria interna, quem está ao redor sente. Não precisa de discurso, palestras ou textões na internet. A presença pacífica se impõe por si mesma. Ela desarma o ambiente.

Em termos práticos, uma mente pacífica interrompe ciclos de violência. Se alguém te ataca com pressa, ironia ou agressividade, e encontra em você um espaço que não vai responder da mesma maneira, a engrenagem do conflito trava. Você não devolve o golpe. Esse silêncio maduro provoca o outro a olhar para o a própria violência. É assim que a paz se expande: pelo contágio da presença, e não pela imposição da força.

Se quisermos mudar a frequência do mundo, precisamos primeiro ajustar a nossa própria sintonia. A sociedade pacífica que tanto idealizamos não nasce de grandes tratados globais, mas da soma de indivíduos que decidiram parar de guerrear com a própria história. Olhe para dentro primeiro. A transformação do todo sempre começa no rascunho de quem nós somos.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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