Vivemos um tempo curioso. Nunca se falou tanto em saúde mental e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão comum encontrar pessoas exaustas, esgotadas e emocionalmente empobrecidas. Muitas organizações, empresas e instituições repetem em seus discursos que valorizam o bem-estar de seus colaboradores. Promovem palestras, campanhas internas e slogans sobre equilíbrio emocional. No entanto, na prática cotidiana, impõem ritmos de trabalho que drenam a vitalidade psíquica daqueles que ali se dedicam.

O sujeito moderno passa a viver numa espécie de paradoxo. Ele é incentivado a cuidar de si, mas também é constantemente pressionado a produzir mais, responder mais rápido, mostrar mais resultados. O descanso passa a ser vivido quase como culpa. A pausa parece um luxo, quando deveria ser parte essencial do funcionamento humano.

Do ponto de vista psíquico, algo delicado começa a acontecer: o valor da pessoa passa a ser confundido com sua capacidade de se sacrificar. Muitos indivíduos, sem perceber, começam a acreditar que adoecer de tanto trabalhar é uma espécie de prova de comprometimento. Como se o cansaço extremo fosse um certificado de valor. Como se a exaustão fosse uma medalha invisível que atestasse dedicação e importância.

Essa lógica, entretanto, produz um tipo particular de alienação. A pessoa se compromete intensamente com tarefas, metas, expectativas externas, mas vai se afastando progressivamente de si mesma. Perde a capacidade de escutar os próprios limites, de perceber sinais de esgotamento, de reconhecer quando algo deixou de ser saudável.

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Freud já nos lembrava, em seu famoso trabalho “Mal-estar na civilização”, que a vida em sociedade exige renúncias. Para vivermos juntos, precisamos abrir mão de satisfações imediatas e aceitar certas regras coletivas. Contudo, quando essa renúncia se torna excessiva, quando o sujeito precisa sacrificar partes importantes de sua vida emocional para corresponder a ideais externos, o sofrimento psíquico começa a se instalar.

Não se trata apenas do mundo corporativo. Esse modo de funcionamento atravessa muitos espaços da vida contemporânea. Há pais e mães que se esgotam tentando ser perfeitos. Há estudantes que acreditam que só têm valor se estiverem desesperadamente tentando ser os melhores. Há profissionais liberais, artistas, cuidadores, pesquisadores e tantos outros que, movidos por ideais elevados, acabam se tratando com uma dureza que jamais aplicariam a alguém que amam.

O problema não é o trabalho, o estudo ou a dedicação. Comprometer-se com algo significativo é parte fundamental da construção de uma vida com sentido. O que se perde hoje, muitas vezes, é a capacidade de se comprometer também consigo mesmo.

Comprometer-se consigo implica reconhecer que somos seres limitados, que nosso corpo e nossa mente precisam de repouso, de silêncio, de tempo para metabolizar as experiências da vida. Sem isso, o sujeito vai se tornando apenas uma máquina de desempenho, um executor de tarefas, alguém que produz muito, mas que sente cada vez menos que vive.

Uma vida psíquica saudável não nasce da ausência de esforço, mas da possibilidade de integrar trabalho, desejo, descanso e reflexão. Quando o sujeito consegue preservar um espaço interno onde pode pensar sobre si mesmo, algo essencial se mantém vivo.

Talvez o verdadeiro compromisso não seja aquele que nos leva ao adoecimento, mas aquele que nos permite continuar existindo de forma criativa ao longo do tempo. Afinal, trabalhar muito pode impressionar por um período. Mas aprender a viver de maneira inteira é o que sustenta uma vida inteira.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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