Segundo estudo realizado pela The School of Life, organização que se dedica ao ensino da inteligência emocional, o uso de remédios psiquiátricos praticamente triplicou entre trabalhadores brasileiros de um ano para outro. Esses dados, na verdade, revelam algo mais silencioso e inquietante: a dificuldade crescente de nossa cultura em sustentar a experiência de sofrer. Como se toda dor precisasse ser rapidamente silenciada, neutralizada, apagada. Como se o mal-estar fosse um erro de funcionamento, e não uma dimensão constitutiva da vida psíquica.

Temos assistido a uma progressiva transformação do sofrimento em diagnóstico e do diagnóstico em receita. Tristezas tornam-se transtornos, angústias viram síndromes, conflitos existenciais passam a ser descritos como disfunções químicas. Evidentemente, há sofrimentos que exigem medicação, e seria irresponsável negá-lo. Mas quando quase toda dor pede um remédio, algo da ordem da experiência humana está sendo empobrecido. O livro recém lançado do psiquiatra Daniel Martins de Barros (Sofrimento Não É Doença. Nem todas as dores precisam de remédio, mas todas merecem cuidados) mostra bem esse processo de hiper medicalização que existe atualmente.

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A psicanálise nasceu justamente do reconhecimento de que o sofrimento tem sentido, história, linguagem. Todo sofrimento fala de perdas não elaboradas, de desejos reprimidos, de frustrações inevitáveis, de conflitos entre aquilo que somos e aquilo que imaginamos que deveríamos ser. Sofrer não é apenas um defeito do organismo; é, muitas vezes, um sinal de que algo precisa ser pensado, simbolizado e transformado.

Ao medicalizar de forma indiscriminada, corremos o risco de tratar como doença aquilo que é parte do trabalho psíquico de viver. Não se trata de defender uma exaltação romântica da dor, mas de reconhecer que não há existência humana sem fraturas, sem lutos, sem momentos de desamparo. O ideal contemporâneo de bem-estar permanente cria sujeitos pouco preparados para a frustração, intolerantes à espera, frágeis diante das próprias limitações.

Aprender a sofrer não significa resignar-se passivamente, mas desenvolver recursos internos para atravessar as crises sem se destruir. Significa construir, ao longo do tempo, uma mente capaz de suportar ambivalências, contradições, incertezas. Significa transformar impulsos brutos em pensamento, angústias difusas em palavras, dores mudas em experiências.

Quando toda dor é anestesiada, perde-se também a possibilidade de transformação dos impulsos humanos, da ampliação do potencial da mente, da construção de um tecido psíquico mais sólido. Paradoxalmente, ao tentar eliminar o sofrimento a qualquer custo, empobrecemos nossa capacidade de viver de forma mais inteira.

Talvez o desafio de nosso tempo não seja acabar com a dor, mas recuperar a coragem de escutá-la. Oferecer cuidado sem reduzir o sujeito a um diagnóstico. Sustentar, junto com o outro, a travessia difícil entre aquilo que fere e aquilo que pode, pouco a pouco, ser elaborado. Nem todas as dores precisam de remédio. Mas todas pedem reconhecimento, tempo, palavra e vínculo. É nesse espaço, e não apenas na química, que algo verdadeiramente humano pode se fortalecer.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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