Prazer, dor e a alma impedida de voar
A alma livre é aquela que pode desejar sem estar escravizada por um único objeto; que pode sentir sem se fixar numa só emoção
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de setembro de 2025
A alma livre é aquela que pode desejar sem estar escravizada por um único objeto; que pode sentir sem se fixar numa só emoção
Sylvio do Amaral Schreiner 

São João da Cruz, místico do século XVI, nos ofereceu a seguinte reflexão: "A mosca que pousa no mel não pode voar; a alma que fica presa ao sabor do prazer sente-se impedida em sua liberdade e contemplação." A metáfora, embora simples, revela um dilema profundo da experiência humana: o da fixação em estados afetivos que, embora possam parecer desejáveis, como o prazer, ou inevitáveis, como a dor, tornam-se grilhões que aprisionam a mente e impedem sua expansão psíquica.
A mosca, que ao encontrar o mel acredita ter alcançado o ápice da satisfação, acaba por imobilizar-se naquilo que, paradoxalmente, parecia ser sua fonte deleite. Da mesma forma, na vida psíquica, quando um sujeito se agarra obstinadamente ao prazer, seja ele sensorial, narcísico ou até mesmo intelectual, corre o risco de se ver impedido de continuar seu percurso de amadurecimento emocional. O que inicialmente é fonte de gozo pode, a longo prazo, transformar-se em cárcere. O prazer, quando idealizado, perde sua função de abertura e renovação e passa a servir como barreira contra o novo, o inesperado, o outro.
É comum encontrarmos indivíduos que vivem prisioneiros de formas fixas de prazer: relações afetivas estéreis das quais não conseguem se desvencilhar, padrões compulsivos de consumo, sexualidade reduzida à repetição mecânica, ou ainda, uma busca incessante por validação social e performance. Esses modos de estar no mundo podem parecer à primeira vista prazerosos, mas operam como defesas contra o risco da liberdade emocional, que é sempre acompanhada de incerteza e angústia.
Leia mais:
Curiosamente, essa mesma prisão pode se dar também pelo apego à dor. Para alguns sujeitos, o sofrimento tornou-se uma forma de identidade, uma espécie de território psíquico conhecido onde, embora haja dor, também há segurança. Freud já nos advertia sobre o prazer paradoxal envolvido no sintoma neurótico: uma satisfação recalcada, inconsciente, que impede o sujeito de desinvestir certas formas de ser ligadas ao sofrimento. Em alguns casos, como nas estruturas melancólicas ou em determinados quadros somatizantes, vemos com clareza como o apego à dor impede a livre circulação do desejo.
Winnicott nos lembra que viver criativamente é condição para a saúde psíquica. Porém, a criatividade exige um ego suficientemente fortalecido para suportar o vazio, a espera, o silêncio, enfim, tudo aquilo que não é imediatamente prazeroso ou sensorialmente preenchido. Para voar, é preciso não estar colado ao mel. É preciso suportar o intervalo entre uma experiência e outra, sem se apressar em preenchê-lo com qualquer coisa que alivie o desconforto da ausência. O amadurecimento emocional implica em tolerar a frustração e não fazer do prazer (ou da dor) um ídolo.
A liberdade e a contemplação mencionadas por São João da Cruz não se referem a um estado místico reservado apenas aos santos, mas como uma metáfora para a capacidade de estar em contato com a complexidade da experiência interna, com os afetos contraditórios, com os pensamentos que ainda não se formaram, com os conteúdos dentro de si mesmo. A alma livre é aquela que pode desejar sem estar escravizada por um único objeto; que pode sentir sem se fixar numa só emoção.
Em tempos em que somos continuamente empurrados para a busca do prazer instantâneo e da anestesia do sofrimento, a reflexão do místico espanhol soa mais atual do que nunca. A psicanálise, como caminho de elaboração e transformação, convida o sujeito a recuperar sua capacidade de voar: sair da prisão dos automatismos e se abrir à experiência viva da existência com seus vazios, seus limites, seus encontros e possibilidades. Voar, afinal, não é escapar do mundo, mas a única maneira de viver verdadeiramente.
¨¨¨¨
A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




