O vazio atrás do brilho
O brilho exterior, por mais intenso que seja, não é capaz de preencher os vazios internos deixados por dores não simbolizadas, afetos não compreendidos ou desejos não reconhecidos
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segunda-feira, 14 de julho de 2025
O brilho exterior, por mais intenso que seja, não é capaz de preencher os vazios internos deixados por dores não simbolizadas, afetos não compreendidos ou desejos não reconhecidos
Sylvio do Amaral Schreiner 

A recente declaração do tenista alemão Alexander Zverev, revelando que se encontra num “buraco” emocional, sentindo-se desmotivado e vazio, mesmo estando no auge da carreira, serve como um alerta e também como uma potente convocação para pensarmos sobre os sofrimentos psíquicos que atravessam todos os sujeitos, independentemente da fama, do prestígio, da conta bancária ou da aclamação pública. Seu pedido por ajuda profissional não o diminui; ao contrário, o humaniza. E, sobretudo, nos lembra que não existe blindagem emocional garantida por todo o seu sucesso.
Zverev nos mostra que, por trás de uma imagem vitoriosa, pode haver um mundo interno em colapso. Trata-se de um paradoxo frequentemente visto na clínica psicanalítica: aquele que aparentemente “tem tudo” pode, ao mesmo tempo, sentir que não tem nada. Isso ocorre porque a psique humana não se satisfaz com conquistas objetivas quando a vida emocional permanece empobrecida, reprimida ou pouco desenvolvida. O brilho exterior, por mais intenso que seja, não é capaz de preencher os vazios internos deixados por dores não simbolizadas, afetos não compreendidos ou desejos não reconhecidos. O buraco é sempre mais embaixo.
O mal-estar psíquico não distingue classes sociais nem se intimida diante de títulos e troféus. Ele se infiltra onde a mente não encontrou espaço para metabolizar experiências, perdas, frustrações ou angústias. Freud já alertava que a civilização, ao exigir renúncias para que possamos viver em sociedade, produz inevitavelmente sofrimento. E esse sofrimento, quando não elaborado, pode se transformar em sintomas, angústias difusas, estados depressivos ou, como Zverev nomeou, buracos. Buracos que, muitas vezes, não têm uma causa evidente, mas que existem como expressão de um psiquismo exaurido, sobrecarregado ou desorganizado.
O testemunho do tenista ganha ainda mais importância num cenário em que, frequentemente, pessoas públicas são vistas como figuras idealizadas, como se estivessem imunes ao sofrimento e pertencessem a um exclusivo clube VIP que garantisse só satisfações e prazeres. Mas ninguém escapa da necessidade de enfrentar seus conflitos, de olhar para dentro, de sustentar a dor que encontramos pela vida, da insuficiência e da dúvida. Lidar com a própria mente é uma tarefa contínua, que exige coragem e, muitas vezes, ajuda especializada. É nesse ponto que a psicanálise se torna um recurso valioso: não para oferecer soluções que nos afastam de nossa mente, justamente o oposto, mas para sustentar o processo de elaboração, para ajudar o sujeito a conhecer a si próprio bem como aprender a lidar consigo mesmo.
O gesto de Zverev é, portanto, também um gesto ético: o de reconhecer a própria fragilidade e a necessidade de cuidado. Que sua fala inspire outros a compreenderem que sofrimento psíquico não é sinônimo de fraqueza, mas parte constitutiva da condição humana. E que buscar ajuda é uma forma de responsabilidade consigo mesmo e um dos atos mais potentes de força e saúde. Admitir a necessidade de ajuda não é fácil, negar é muito mais cômodo, mas chega um momento que precisamos escolher o que queremos da vida.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


