O território desconhecido da nossa própria alma
Quem nunca olha para dentro acaba vivendo quase sempre em reação ao que acontece fora
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segunda-feira, 03 de agosto de 2026
Quem nunca olha para dentro acaba vivendo quase sempre em reação ao que acontece fora
Sylvio do Amaral Schreiner 

"Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro, desperta." A conhecida frase de Carl Gustav Jung permanece atual porque toca numa verdade que parece cada vez mais difícil de viver. Olhar para fora é quase inevitável. O mundo inteiro disputa nossa atenção. Há sempre uma nova notícia, uma nova série, uma viagem desejável, um restaurante para conhecer, uma compra a fazer, uma tela para deslizar com o dedo. Nunca foi tão fácil manter a mente ocupada com aquilo que está diante dos olhos.
Nada disso é um problema em si. O problema começa quando toda a nossa existência se organiza em torno do exterior. A pessoa passa a acreditar que viver consiste em acumular sensações e estímulos. Corre de um compromisso para outro, de uma novidade para a seguinte, sempre em busca de algo que lhe devolva entusiasmo. Há muita excitação, mas pouca transformação.
É curioso perceber que podemos conhecer muitos países e continuar estrangeiros de nós mesmos. Podemos conversar com centenas de pessoas e nunca termos estabelecido um diálogo verdadeiro com aquilo que sentimos. Podemos dominar várias áreas do conhecimento e, ainda assim, permanecer analfabetos na linguagem da própria vida psíquica.
A psicanálise sempre chamou atenção para esse fato. O ser humano não vive apenas no mundo concreto. Vive também num mundo interno, povoado por lembranças, fantasias, desejos, medos, lutos, conflitos e esperanças. Esse mundo invisível acompanha cada decisão que tomamos, cada vínculo que construímos e até mesmo a maneira como percebemos a realidade. Ignorá-lo não faz com que ele desapareça. Apenas faz com que continue atuando sem que percebamos.
Uma das marcas do nosso tempo é justamente o enfraquecimento da vida interior. Somos treinados para responder rapidamente às demandas externas, mas raramente aprendemos a escutar o que acontece dentro de nós. A escola ensina a resolver problemas, mas quem nos ensina a reconhecer angústias? Aprendemos a usar tecnologias sofisticadas, porém pouco sabemos sobre os próprios afetos.
É vital para a vida psíquica a capacidade de estar consigo mesmo sem sentir que isso representa um vazio insuportável. No entanto, para muita gente, qualquer instante de silêncio parece ameaçador. Basta surgir um intervalo para que imediatamente procure um celular, uma conversa, uma música, uma compra ou qualquer outra distração. Não é apenas tédio. Muitas vezes, é uma fuga da própria companhia.
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Existe uma diferença importante entre prazer e plenitude. O prazer costuma estar ligado ao que recebemos do mundo: uma boa refeição, uma viagem, um elogio, uma conquista profissional. Tudo isso tem seu valor e faz parte de uma vida saudável. A plenitude, porém, depende de algo mais profundo. Ela nasce quando conseguimos estabelecer algum contato com aquilo que somos, quando nossa vida externa deixa de ser uma tentativa permanente de escapar da vida interna.
Quem nunca olha para dentro acaba vivendo quase sempre em reação ao que acontece fora. O humor depende das circunstâncias, a autoestima depende da aprovação dos outros, a felicidade depende do próximo acontecimento. A pessoa se torna refém das variações do ambiente porque perdeu contato com o lugar de onde poderia retirar alguma estabilidade.
Olhar para dentro não significa fechar os olhos para o mundo nem viver numa espécie de introspecção permanente. Significa reconhecer que existe uma dimensão da existência que não pode ser encontrada nas vitrines, nas redes sociais ou nas experiências de consumo. Existe uma vida mental que precisa ser conhecida, cultivada e habitada.
Talvez Jung tivesse razão ao dizer que quem olha para dentro desperta. Não porque encontre respostas, mas porque deixa de viver apenas na superfície dos acontecimentos. O despertar de que ele fala não é um momento espetacular. É o lento reconhecimento de que a maior viagem que podemos fazer não atravessa continentes. Atravessa o território, muitas vezes desconhecido, da nossa própria alma.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




