Nos últimos tempos, um roedor sul-americano atravessou fronteiras geográficas e ganhou notoriedade mundo afora: a capivara. Ela aparece em vídeos, ilustrações, brinquedos, memes, tatuagens. Deitada à beira d’água, permitindo que pássaros pousem sobre seu dorso, convivendo com cães, gatos, patos e até jacarés, transmite uma espécie de calma. Não parece disputar território, não ostenta força, não impõe medo. Apenas está ali existindo.

Esse encantamento coletivo não é casual. O imaginário humano, especialmente em épocas de tensão, elege figuras que funcionam como refúgios simbólicos. A capivara tornou-se uma dessas imagens-abrigo. Enquanto vivemos em permanente estado de alerta, cercados por notícias alarmantes, pressões de desempenho, disputas, urgências econômicas e tecnológicas nossos mundos internos também se organizam em torno da vigilância. Dormimos mal, pensamos rápido demais, defendemo-nos antes mesmo de sermos atacados. A paz psíquica transforma-se em artigo raro.

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Nesse cenário, a capivara encarna algo que pouco experimentamos que é a possibilidade de existir sem estar em guerra. Seu corpo grande e lento, seus gestos econômicos, sua aparente indiferença às pequenas provocações do ambiente sugerem uma mente que não precisa se contrair o tempo todo. Ela não parece dominada pela lógica do ataque ou da fuga. Ao contrário, transmite a fantasia de uma confiança básica no mundo, como se este ainda pudesse ser habitado sem armaduras.

Do ponto de vista psíquico, poderíamos dizer que projetamos nesse animal aquilo que nos falta. Não apenas tranquilidade, mas uma forma de estar vivo sem se sentir constantemente ameaçado. A capivara torna-se, assim, um objeto de investimento afetivo: olhamos para ela e, por instantes, respiramos diferente. Algo em nós desacelera. Como se sua imagem autorizasse uma pausa, um pequeno descanso do excesso de excitação que nos atravessa.

Talvez por isso ela seja tão buscada em imagens lúdicas. Não queremos apenas vê-la; queremos habitá-la simbolicamente. Queremos sua lentidão, sua convivência sem conflito, sua recusa silenciosa à lógica da brutalidade. Num mundo que glorifica a competição, a eficiência exaustiva e a vitória sobre o outro, a capivara representa uma outra dimensão. A de simplesmente permanecer, compartilhar o espaço, não transformar toda diferença em ameaça.

Esse fascínio mundial pelas capivaras revela, portanto, menos sobre o animal e mais sobre nós. Ele denuncia o quanto estamos cansados de viver em tensão crônica, o quanto nossa vida mental se encontra sobrecarregada por exigências. A capivara surge como um pequeno aviso de que ainda é possível uma existência menos endurecida, menos persecutória, menos ruidosa por dentro.

Ao contemplá-la, talvez toquemos, mesmo que de modo fugaz, uma lembrança primitiva de serenidade. Uma memória psíquica de tempos em que o mundo parecia, ao menos por instantes, um lugar suficientemente seguro para descansar

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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