Há alguns anos, talvez parecesse exagero imaginar que livros voltariam a ser retirados de escolas, bibliotecas e salas de aula por causa dos temas que abordam, mas é exatamente isso que vem acontecendo em vários países, sobretudo nos Estados Unidos. Obras que tratam de sexualidade, violência, identidade, desigualdade, história e conflitos familiares passaram a ser questionadas, restringidas ou simplesmente proibidas. No Brasil, em escala menor, também assistimos a episódios de recolhimento de livros, contestação de obras e tentativas de impedir sua circulação.

À primeira vista, a questão parece bastante simples: há conteúdos considerados inadequados, ofensivos ou perigosos, mas não é só disso que se trata. Quando alguém decide que determinado livro não deve ser lido, tenta limitar não apenas o acesso a uma ideia, mas também aquilo que pode ser pensado e sentido a partir dela. Há, por trás disso, uma vontade de controlar o que as pessoas podem imaginar, sonhar, conhecer ou colocar em dúvida. Como se a vida mental pudesse ser arrumada como uma estante: isto permanece, aquilo deve ser retirado.

Só que a mente não funciona dessa maneira. Todos nós abrigamos pensamentos contraditórios, sentimentos difíceis de admitir, desejos que não combinam com a imagem que fazemos de nós mesmos. Podemos amar e ter ódio da mesma pessoa. Invejar alguém de quem gostamos. Fantasiar coisas que nunca faríamos. Desejar o impossível. A vida interior está longe de ser coerente ou moralmente organizada. Amadurecer talvez tenha muito a ver com suportar essa complexidade sem precisar fingir que tudo aquilo que nos desagrada simplesmente não existe.

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A literatura participa disso de um modo muito particular. Ao ler um romance, podemos passar algumas horas dentro de uma existência que não é a nossa. Podemos acompanhar um personagem cruel sem nos tornarmos cruéis, compreender alguém que fez algo condenável, experimentar por algumas páginas uma paixão proibida ou reconhecer um sentimento que jamais teríamos coragem de confessar. Ler não significa concordar. Às vezes significa justamente poder chegar perto daquilo que, na vida comum, preferimos manter à distância.

Essa é uma das funções mais importantes da imaginação. Ela cria um espaço entre sentir e agir. Nem tudo o que passa pela mente precisa se transformar em gesto. Podemos atravessar, pela literatura, o medo, a violência, a morte, a culpa, o desejo e a perda sem precisar concretizar nada disso. O livro oferece uma espécie de território de experiência. Entramos, permanecemos por algum tempo e saímos de lá um pouco diferentes, nem sempre sabendo exatamente por quê.

Por isso chama atenção a ideia, cada vez mais presente, de que determinados livros possam “contaminar” quem os lê. Há hoje uma dificuldade considerável em distinguir compreender de aprovar, conhecer de defender, pensar de agir. Se uma obra mostra determinado comportamento, logo se supõe que o esteja incentivando. É uma visão curiosamente frágil da mente humana, como se bastasse entrar em contato com uma ideia para ser dominado por ela.

O contrário é mais verdadeiro. O que não pode ser pensado costuma encontrar outros caminhos para aparecer. Quando uma sociedade começa a estabelecer quais experiências podem ou não ser representadas, acaba sugerindo que também haveria uma vida interior correta: sentimentos aceitáveis, desejos legítimos, perguntas permitidas. O restante deveria ser afastado, silenciado, esquecido. Mas aquilo que não queremos reconhecer não desaparece apenas porque deixamos de falar sobre ele.

É justamente aí que os livros incomodam. Eles colocam palavras onde muitas vezes preferiríamos deixar silêncio. Mostram que pessoas comuns são capazes de ternura e crueldade, amor e inveja, generosidade e destrutividade. Machado de Assis conhecia muito bem essa região ambígua da alma humana. Dostoiévski também. Clarice Lispector passou boa parte de sua obra tentando chegar perto daquilo que sentimos antes mesmo de conseguir explicar.

A literatura sempre causou certa desconfiança, já que ela frequentemente complica as respostas que já tínhamos. Faz surgir dúvidas, desloca certezas, aproxima-nos de pessoas que jamais escolheríamos conhecer. E, de vez em quando, mostra algo de nós mesmos que preferiríamos não ver.

A literatura não nos protege do que existe dentro de nós. Nem deveria. Quando uma sociedade começa a ter medo demais dos livros, vale perguntar não apenas o que existe dentro deles.

Vale perguntar o que tememos que eles despertem dentro de nós.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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