O medo de encontrar a si mesmo
Quanto menos precisamos parecer coerentes o tempo todo, mais vivos podemos nos tornar
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Quanto menos precisamos parecer coerentes o tempo todo, mais vivos podemos nos tornar
Sylvio do Amaal Schreiner 

Há encontros dos quais fugimos mudando de rua, de cidade, de trabalho ou de amor. O encontro consigo mesmo, porém, costuma nos seguir. Podemos trocar a casa, os hábitos, o círculo de amigos, a maneira de nos vestir. Durante algum tempo, essas mudanças até produzem a sensação de uma vida nova, mas aquilo que não conseguimos reconhecer em nós reaparece. Às vezes numa escolha que se repete, numa irritação desproporcional, num vazio inesperado. E quase sempre parece mais fácil culpar as circunstâncias.
Fala-se do autoconhecimento como se fosse uma viagem bonita rumo a uma espécie de centro verdadeiro, onde finalmente encontraríamos paz. Olhar para dentro, na prática, é bem menos agradável. Quem se dispõe a isso pode descobrir inveja misturada à admiração, raiva sob uma dedicação aparentemente generosa ou o desejo de abandonar justamente aquilo por que tanto lutou. Há também sentimentos difíceis de nomear, lembranças que mudam conforme o tempo e perguntas que talvez nunca recebam uma resposta satisfatória.
É compreensível, então, que tantas pessoas prefiram uma definição pronta: “Sempre fui muito independente”, “sou uma pessoa racional”, “não tenho ciúme”, “comigo é oito ou oitenta”. Frases assim organizam a experiência e oferecem uma identidade que pode ser apresentada aos outros. Tornam tudo mais simples. O problema é que, depois de algum tempo, passamos a protegê-las mesmo quando a vida começa a desmenti-las.
Quem se acredita inteiramente independente pode não perceber o quanto teme precisar de alguém. A pessoa que se considera racional talvez use a razão para não entrar em contato com sentimentos que a deixam sem defesa. Até a força, tão valorizada, pode esconder uma antiga impossibilidade de pedir ajuda. Nada disso torna falsa a imagem que alguém tem de si. Ela apenas não conta a história inteira.
Leia mais:
Talvez o que mais assuste seja perceber que não somos uma unidade tão bem resolvida quanto imaginávamos. Podemos amar alguém e desejar distância. Sentir gratidão e ressentimento pela mesma pessoa. Querer mudar e, diante da primeira possibilidade real de mudança, agarrar-nos ao conhecido. Certas partes de nós cresceram; outras continuam esperando algo que não veio. Conviver com essa mistura é trabalhoso. Mais confortável é eleger uma versão oficial de si mesmo e viver como seu porta-voz.
Aos poucos, porém, essa versão pode se transformar numa personagem. A pessoa diz que está bem porque sempre foi aquela que dá conta de tudo. Aceita convites por medo de desagradar, mantém relações que já perderam a vitalidade e persegue desejos que talvez nem sejam seus. Pode ser admirada, produtiva e socialmente bem-sucedida. Ainda assim, percebe que alguma coisa perdeu o gosto.
A falta de sentido muitas vezes começa aí. Não porque a vida esteja vazia de acontecimentos, mas porque quem a vive já quase não se encontra neles. É como habitar uma casa decorada por outras pessoas: tudo parece estar no lugar, embora nada seja verdadeiramente íntimo. Existe movimento, existem tarefas, projetos e compromissos; falta a impressão de estar presente na própria existência.
Encontrar a si mesmo não é desenterrar uma identidade pura, guardada em algum lugar da alma. Também não significa compreender tudo ou alcançar uma harmonia definitiva. Conhecer-se está mais em adquirir alguma intimidade com aquilo que permanece contraditório, incerto e pouco lisonjeiro. Conseguir escutar um sentimento antes de corrigi-lo. Perguntar de onde vem uma escolha antes de defendê-la. Admitir que, em certos momentos, sequer sabemos o que queremos.
Quanto menos precisamos parecer coerentes o tempo todo, mais vivos podemos nos tornar. A vida recupera algum sentido quando deixamos de apenas cumprir o papel que aprendemos a representar e suportamos, ainda que por instantes, a inquietante liberdade de não saber exatamente quem somos.
¨¨¨¨¨
A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




