Há pessoas que parecem estar sempre de prontidão para salvar os outros daquilo que eles mesmos fizeram. Alguém comete uma grosseria, e elas logo explicam que estava nervoso. Uma pessoa humilha outra, e dizem que não foi bem aquilo que ela quis dizer. Alguém mente, trai um acordo ou age de maneira irresponsável, e rapidamente surge uma justificativa tal como teve uma infância difícil, atravessa uma fase complicada, é imaturo, estava sob pressão. Às vezes, o gesto é ainda mais grave, mas o mecanismo permanece o mesmo: diminuir, encobrir, relativizar.

É possível que tudo comece com uma boa intenção. Quem age assim costuma acreditar que está protegendo alguém de um sofrimento desnecessário. Em certas famílias, essa tarefa atravessa gerações. Há sempre quem faça os reparos, peça desculpas em nome do outro, pague suas dívidas, apague seus rastros ou convença os demais de que não foi tão sério. Pouco a pouco, uma estranha divisão se estabelece. Um destrói; outro recolhe os cacos.

O problema é que, ao salvar alguém repetidamente das consequências de seus atos, não lhe ensinamos apenas que será amparado. Ensinamos também que destruir não custa nada. Se toda marca pode ser apagada, se toda dívida é paga por outra pessoa, se toda ofensa acaba transformada num mal-entendido, não há motivo suficiente para mudar. A realidade deixa de funcionar como limite.

Isso aparece nas situações mais comuns. Um filho adulto que gasta irresponsavelmente e sabe que os pais cobrirão suas dívidas. Um companheiro que fere, pede desculpas sem verdadeira implicação e logo é absolvido. Um colega que trata todos com arrogância, enquanto alguém explica que “esse é apenas o jeito dele”. Em cada uma dessas cenas, talvez exista afeto, medo do conflito ou desejo de preservar o vínculo. Mas há também uma espécie de proteção que, embora pareça amorosa, impede o outro de amadurecer.

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Quem criou determinado problema precisa olhar para aquilo que fez. Precisa reconhecer o dano, suportar algum desconforto e, quando possível, reparar. Não como quem é colocado diante de um tribunal moral, mas como quem encontra a realidade. Se derrubei algo, preciso ver o que caiu. Se feri alguém, preciso admitir que minha intenção não apaga o efeito do meu gesto. Se perdi a confiança de uma pessoa, talvez tenha de aceitar que recuperá-la levará tempo e que, em alguns casos, ela não será recuperada.

Responsabilidade não é sinônimo de culpa interminável. A culpa que apenas atormenta pode até paralisar; a responsabilidade, ao contrário, abre a possibilidade de transformação. Ela permite que alguém diga: fui eu quem fez isso, há algo meu aqui, e preciso encontrar outra maneira de agir. Sem esse reconhecimento, o pedido de desculpas vira apenas um recurso para encerrar rapidamente o assunto e retornar ao mesmo lugar.

Apoiar alguém não significa livrá-lo de tudo. Pode significar permanecer por perto enquanto ele enfrenta o que produziu. Escutar sua angústia sem falsificar os acontecimentos. Ajudá-lo a reparar sem fazer a reparação em seu lugar. Compreender as razões de um comportamento sem transformar essas razões em licença para repeti-lo.

Há uma diferença decisiva entre compreender e absolver. Todo gesto humano possui uma história, mas nem toda história justifica o gesto. Uma pessoa pode ter sofrido muito e ainda assim ser responsável pelo sofrimento que causa. Reconhecer isso não é falta de compaixão. Talvez seja uma forma mais exigente e verdadeira de cuidado.

Em certos momentos, o gesto mais amoroso não é amortecer a queda, mas permitir que o outro sinta o chão. Não para vê-lo sofrer, e sim para que descubra que seus atos têm peso, alcançam outras pessoas e produzem consequências. Afinal, ninguém muda profundamente enquanto permanece protegido do encontro com aquilo que faz.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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