O dramaturgo americano Arthur Miller escreveu certa vez que sua divergência em relação a boa parte da psicanálise estava no modo como ela tratava o sofrimento: como erro, fraqueza ou sinal de doença. Para ele, algumas das maiores verdades humanas provavelmente haviam nascido justamente da dor. Há muita razão nessa crítica. Antes de apontar o equívoco que ela contém, é preciso reconhecer o que Miller percebeu com tanta clareza. Ele viu algo verdadeiro, apenas lhe deu o nome errado.

No início dos anos 1960, Miller tinha diante de si uma psicanálise bastante distante daquela criada por Freud. Medicalizada e envolvida pelo otimismo fútil, ela havia se tornado, em certos meios, uma técnica de adaptação. Parecia prometer oferecer ao sujeito uma vida sem grandes conflitos. Em suma, prometia felicidade.

Miller chamou esse ideal, numa expressão ainda hoje perturbadora, de “felicidade lobotomizada”: um estado em que nada dói porque quase nada é verdadeiramente sentido. Contra isso, sua revolta era legítima. Uma promessa assim não apenas fracassa; acaba humilhando aquele que sofre, como se sua dor fosse um defeito de fabricação que um tratamento bem-sucedido deveria eliminar.

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Freud, contudo, nunca prometeu semelhante coisa. Quando escreveu que a análise poderia transformar a miséria do sofrimento em infelicidade comum, recusava o lugar de fornecedor de bem-estar. O que a análise poderia fazer não era livrar alguém da dor, mas ajudá-lo a reconhecer a dor que de fato lhe pertencia. Há uma diferença importante entre sofrer por aquilo que a vida nos impõe e permanecer aprisionado num sofrimento antigo, deformado, que se repete sem jamais encontrar palavras. O problema, para a psicanálise, nunca foi simplesmente a existência da dor, mas a impossibilidade de vivê-la e pensá-la.

Outros analistas retomaram essa questão à sua maneira. Bion distinguiu o sofrimento que pode ser atravessado daquele do qual a mente tenta fugir a qualquer preço. Para ele, a expansão nasce justamente quando conseguimos permanecer algum tempo junto ao que nos perturba, sem expulsá-lo nem transformá-lo depressa demais em explicação.

A experiência clínica, porém, obriga a acrescentar algo à formulação de Miller: nem todo sofrimento produz verdade. Há dores que movimentam a vida psíquica, abrem perguntas e nos aproximam de algo que ainda não sabíamos sobre nós mesmos. Outras apenas se repetem, exaurem e empobrecem.

A diferença não está na intensidade da dor, mas no destino que ela encontra dentro de uma pessoa. O trabalho analítico começa nesse ponto que não é perguntando como eliminar o sofrimento, mas se aquilo que dói poderá, algum dia, transformar-se em experiência.

Eis a ironia: a crítica de Miller poderia ter sido feita pelo próprio Freud. Aquilo contra o qual o dramaturgo se insurgiu existia e continua existindo. É o sofrimento convertido rapidamente em sigla, protocolo e prescrição.

Talvez uma das contribuições mais vivas da psicanálise seja justamente sua resistência a esse gesto apressado. Enquanto todos já acreditam saber a categoria à qual uma dor pertence, ela ainda se demora diante de uma pergunta mais difícil. O que essa dor significa para esta pessoa, com esta história, neste momento de sua vida?

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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