Estamos todos no mesmo barco
Tudo precisa ser imediato, intenso e visível, mas aquilo que realmente sustenta uma vida humana exige tempo e profundidade
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segunda-feira, 25 de maio de 2026
Tudo precisa ser imediato, intenso e visível, mas aquilo que realmente sustenta uma vida humana exige tempo e profundidade
Sylvio do Amaral Schreiner 

Há algum tempo, o tenista Carlos Alcaraz disse algo raro em um mundo que transformou desempenho em religião: “Houve momentos em que não parei para descansar, e isso terminou mal. Acho que dar atenção à saúde mental é tão ou mais importante do que cuidar do corpo. Algumas pessoas ficam obcecadas com a estética corporal, mas, para mim, isso vale tanto quanto se preocupar com a cabeça”. A fala chama atenção justamente porque vem de alguém jovem, vencedor, admirado e aparentemente no auge da vitalidade. Ainda assim, ele reconhece algo que muitos tentam negar: uma vida externamente bem-sucedida pode estar internamente adoecida.
Recentemente, Padre Fábio de Melo também comentou o quanto a fama lhe trouxe sofrimento e o deixou doente. Não é difícil entender por quê. A fama, muitas vezes, exige uma existência performática. Aos poucos, a pessoa deixa de viver para começar a corresponder. O sujeito passa a existir em função da imagem que os outros esperam dele.
Vivemos obcecados pela superfície. Nunca se falou tanto em corpo, produtividade, alta performance, imagem, alcance, resultados, engajamento. O mundo estimula constantemente os sentidos: mais telas, mais consumo, mais velocidade, mais estímulos, mais exposição. Porém, raramente ensina alguém a estar consigo mesmo. Há pessoas que sabem exatamente quantas calorias ingeriram no dia, mas não fazem ideia do que sentiram durante a semana inteira.
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A mente vai ficando relegada a um segundo plano, como se fosse algo abstrato demais para merecer cuidado. Uma dor muscular costuma receber mais atenção do que uma tristeza persistente. Uma febre mobiliza repouso imediato; já uma angústia contínua costuma ser ignorada até se transformar em exaustão, irritabilidade ou adoecimento mais grave.
O sofrimento psíquico raramente surge de forma abrupta. Ele vai se instalando lentamente, quase silenciosamente. Pequenas concessões feitas contra si mesmo. Um cansaço constante que se normaliza. Uma vida que vai perdendo sentido, mas continua funcionando. Uma pessoa que sorri, produz, entrega resultados, comparece aos compromissos e, ao mesmo tempo, sente que desapareceu de si própria.
Talvez uma das formas mais perigosas de adoecimento seja justamente essa de continuar funcionando enquanto se perde o contato consigo mesmo. Há pessoas que só percebem o quanto estavam adoecidas quando o corpo finalmente entra em colapso, quando o sono desaparece, quando a ansiedade toma conta ou quando já não conseguem mais experimentar prazer em nada.
A vida baseada apenas em estímulos sensoriais e superficialidades produz uma espécie de desertificação interna. Tudo precisa ser imediato, intenso e visível, mas aquilo que realmente sustenta uma vida humana (vínculos, capacidade de pensar, de sonhar, de elaborar perdas, de suportar frustrações e de sentir genuinamente) exige tempo e profundidade. E isso não rende boas fotos nem vídeos curtos.
Existe uma diferença importante entre viver e apenas manter-se em movimento. Muita gente está permanentemente ocupada para não precisar se encontrar consigo mesma. O excesso de distrações pode funcionar como anestesia. Só que emoções ignoradas não desaparecem. Elas continuam trabalhando dentro de nós.
Por isso é tão significativo quando figuras públicas, admiradas por milhões, falam de suas fragilidades emocionais. Não porque sofrimento seja algo bonito, mas porque ajudam a desmontar a fantasia de que sucesso, fama, dinheiro, beleza ou reconhecimento seriam suficientes para proteger alguém do sentimento de desamparo.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




