De boas intenções o inferno está cheio
Respeitar o tempo do paciente, suas defesas e a função do sintoma é condição essencial para que a análise seja de fato terapêutica
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
Respeitar o tempo do paciente, suas defesas e a função do sintoma é condição essencial para que a análise seja de fato terapêutica
Sylvio do Amaral Schreiner 

Na prática clínica psicanalítica, aprendemos que os sintomas não são apenas sinais a serem eliminados, mas construções complexas que guardam em si uma função psíquica vital. Muitas vezes, eles se erguem como barragens improvisadas diante de um excesso de sofrimento que não pode ainda ser simbolizado ou enfrentado. O sintoma, nesse sentido, é um recurso de sobrevivência: um ponto de amarração que impede o sujeito de mergulhar em um desamparo absoluto e assustador. Sintomas como alcoolismo, compulsões e etc. não existem á toa.
Retirar um sintoma de maneira abrupta, sem respeitar a economia psíquica que o sustenta, equivale a subtrair uma tábua de apoio de alguém que ainda não aprendeu a nadar. Em outras palavras, é algo que pode ser muito perigoso. Ao invés de promover alívio, pode precipitar uma queda mais violenta na angústia, na desorganização interna e, em casos graves, em estados próximos à loucura. O sintoma, por mais doloroso ou limitante que seja, cumpre provisoriamente uma função de contenção; ele “segura” algo que, de outro modo, poderia se desdobrar em vivências insuportáveis. Não se deve nunca retirar um sintoma à força como se isso fosse fazer bem ao paciente. Por mais que possa parecer a ideia de se retirar os sintomas algo com as melhores das intenções, é bom não esquecer o antigo ditado que diz que de boas intenções o inferno está cheio.
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O tratamento psicanalítico não se orienta pela pressa de eliminar sintomas, mas pela escuta e pela construção gradual de condições internas que permitam ao paciente encontrar alternativas mais criativas para lidar com seus conflitos. Tal qual uma vacina, não elimina o micro-organismo que causa determinada doença, mas cria condições para que o corpo se fortaleça e crie recursos que possibilite lidar com mais eficiência com a doença em si. A análise cria um espaço no qual aspectos da personalidade vão sendo fortalecidos, ampliando a capacidade de pensar, de simbolizar e de tolerar afetos intensos. Nesse processo, o sintoma vai aos poucos perdendo a centralidade que tinha, pois novas formas de elaboração se tornam possíveis.
Assim, não se trata de arrancar o sintoma, mas de criar algo muito melhor em seu lugar. Formar uma rede mais sólida de recursos internos que permita ao sujeito abrir mão, por si mesmo, daquela defesa precária e quando isso acontece, o abandono do sintoma não é vivido como violência, mas como conquista, fruto de um amadurecimento psíquico real. O psicanalista não pode se comportar como se fosse todo poderoso e achar que tem o poder de “curar” seu paciente à força. Muitos profissionais despreparados acham que tratar os sintomas como coisas inúteis e que precisam ser retirados com o máximo de pressão das mais variadas formas acabam causando um mal terrível. Respeitar o tempo do paciente, suas defesas e a função do sintoma é condição essencial para que a análise seja de fato terapêutica e não apenas uma intervenção técnica que pode fragilizar ainda mais quem busca ajuda.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




