“Onde não há lei, não há liberdade”, escreveu o filósofo John Locke. A frase causa certo estranhamento porque costumamos imaginar a liberdade como um campo aberto, sem cercas nem proibições: poder fazer o que se quer, no momento em que se quer. A lei apareceria, então, como aquilo que interrompe o desejo e estreita os caminhos. Porém, basta observar um pouco a vida para perceber que a ausência completa de limites não produz liberdade. Produz outra coisa: o domínio da força, da urgência e do impulso.

Existem, evidentemente, as leis escritas, necessárias para que a convivência não dependa apenas da vontade de quem tem mais poder. Há, porém, outra lei, silenciosa e particular, que cada pessoa precisa construir dentro de si. É o que nos permite reconhecer que nem tudo o que desejamos deve ser feito, que o outro não está no mundo apenas para nos satisfazer e que nossas escolhas deixam marcas.

Essa aprendizagem começa muito cedo. A criança quer aquilo que quer e quase nenhuma paciência. Precisa de adultos capazes de acolher sua intensidade sem se submeter completamente a ela. Aos poucos, descobre que terá de esperar, dividir, perder, pedir, ouvir um “não”. Se esses limites são apresentados com alguma firmeza, mas sem humilhação, tornam-se parte de seu mundo interior. Aquilo que antes dependia da presença de alguém passa a existir como uma capacidade própria.

Ter lei dentro de si é conseguir fazer uma pausa entre o desejo e o ato. Às vezes essa pausa dura poucos segundos, mas pode mudar muita coisa. É nela que alguém percebe que está prestes a dizer algo irreparável, repetir uma escolha desastrosa ou trocar aquilo que realmente deseja por uma satisfação passageira. Sem esse pequeno intervalo, a pessoa simplesmente reage. Pode até acreditar que está sendo espontânea, quando, na verdade, apenas obedece ao que sente naquele instante.

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Quem precisa realizar cada vontade assim que ela aparece não é tão livre quanto imagina. Está submetido aos próprios impulsos. A raiva manda falar, e ele fala. A ansiedade exige alívio, e ele corre para aquilo que momentaneamente a silencia. O prazer pede repetição, mesmo depois de ter deixado de ser prazeroso. De fora, parece alguém que não aceita restrições. Por dentro, porém, há pouca escolha. Onde tudo precisa ser satisfeito, quase nada pode ser verdadeiramente decidido.

A fantasia de que tudo é possível também torna difícil sustentar uma vida. Escolher uma pessoa significa renunciar a outras; assumir um trabalho exige abandonar certos caminhos; cuidar de um projeto pede tempo que não poderá ser usado em outra coisa. Mesmo as escolhas felizes carregam alguma perda. Quem não tolera essa perda permanece diante de todas as portas, sem conseguir atravessar nenhuma.

Na Odisseia, Ulisses sabe que não resistirá ao canto das sereias. Pede, então, que seus homens o amarrem ao mastro do navio e não o soltem, ainda que ele ordene o contrário. A corda parece retirar sua liberdade, mas é justamente o que lhe permite atravessar aquele trecho do mar sem ser destruído. Ulisses compreende algo que muitas vezes esquecemos: em certos momentos, precisamos de um limite que nos proteja de uma parte de nós mesmos.

Isso não significa transformar a lei interna numa espécie de carcereiro. Há pessoas que vivem perseguidas por uma voz impiedosa, incapazes de desfrutar um prazer sem culpa ou de cometer um erro sem se condenar por inteiro. Nesse caso, o limite já não favorece; sufoca. A lei de que precisamos não é uma vigilância cruel, mas uma autoridade íntima razoável, capaz de considerar o desejo sem tratá-lo como soberano.

A liberdade está justamente aí. Não em poder fazer qualquer coisa, mas em não precisar fazer tudo o que se deseja. Poder esperar. Mudar de ideia. Recusar uma tentação. Sustentar uma escolha depois que o entusiasmo inicial passou. Pedir desculpas quando se ultrapassou um limite. Reconhecer que a presença do outro modifica aquilo que nos é permitido fazer.

A lei interna não empobrece a vida nem diminui o desejo. Ela lhe oferece contorno. Como as margens de um rio, não serve apenas para conter a água, mas também para permitir que ela siga adiante. Sem margem, o rio se espalha, perde força e se transforma em alagamento. Algo semelhante acontece conosco: quando nenhum limite é aceito, a energia da vida se dispersa ou se torna destrutiva. A liberdade começa quando já não somos levados por qualquer corrente e podemos, enfim, escolher uma direção.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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