“Se você não é seu próprio médico, você é um tolo”, diz uma frase atribuída a Hipócrates, conhecido como o pai da medicina. É uma afirmação áspera, como eram muitas das antigas sentenças destinadas a despertar quem as ouvia. Ser o próprio médico, aqui, não significa fazer diagnósticos por conta própria ou dispensar profissionais, exames e tratamentos. Significa não viver como alguém alheio ao próprio corpo, esperando que outra pessoa perceba aquilo que nós mesmos deixamos de observar.

A palavra “cura” vem do latim e significa cuidado, atenção, zelo. Há algo importante aí. Antes de designar o desaparecimento de uma doença, curar era ocupar-se de alguém. Talvez ainda seja. Nem sempre é possível eliminar uma enfermidade, desfazer uma perda ou livrar uma pessoa de sua dor. Ainda assim, é possível cuidar. A cura, nesse sentido mais amplo, não começa quando o sofrimento termina, mas quando alguém se dispõe a olhar para ele.

Do corpo aprendemos a cuidar um pouco melhor. Conhecemos, ao menos em linhas gerais, a importância da alimentação, do sono, dos exercícios, das consultas e dos exames. Nem sempre seguimos o que sabemos, evidentemente. Ainda assim, uma febre, uma dor insistente ou uma alteração no organismo costumam nos alarmar. O corpo interrompe a rotina, obriga-nos a prestar atenção e, quando não é ouvido, eleva a voz.

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A vida mental fala de outro modo. Seus sinais são menos nítidos e, por isso, podem ser ignorados durante anos. Uma pessoa continua trabalhando, conversa com os amigos, cuida dos filhos e responde às mensagens. Vista de fora, sua vida parece seguir normalmente. Por dentro, porém, ela já não sente prazer no que antes lhe interessava, dorme mal, irrita-se com facilidade ou carrega uma tristeza que não sabe explicar. Como ainda dá conta das obrigações, conclui que não deve ser nada. Aos poucos, acostuma-se a viver mal.

Quase ninguém nos ensina a cuidar do mundo interno. Aprendemos regras de higiene, mas pouco se fala sobre o que fazer com a raiva, a culpa, o medo, a solidão ou a inveja. Diante desses sentimentos, tentamos expulsá-los, escondê-los ou fingir que não existem. Enchemos os dias de trabalho, compromissos, compras, comida, bebida e distrações. Às vezes, a agenda lotada é menos sinal de vitalidade do que uma maneira engenhosa de nunca ficar sozinho consigo.

Cuidar da mente começa por alguma curiosidade a respeito de si. Por que certas situações me atingem dessa maneira? O que me leva a repetir relações que me fazem mal? Por que digo “sim” quando gostaria de dizer “não”? São perguntas simples, embora as respostas raramente sejam. E não precisam ser encontradas depressa. Algumas exigem tempo; outras só aparecem quando conseguimos pensá-las na presença de alguém.

Ser o próprio médico também inclui reconhecer quando o cuidado solitário já não basta. Procurar ajuda não é renunciar à responsabilidade sobre si, mas exercê-la. Há momentos em que precisamos de um médico, de um psicoterapeuta, de alguma ajuda especializada. A autonomia não consiste em fazer tudo sozinho. Consiste em perceber do que necessitamos e não tratar essa necessidade como fraqueza.

É curioso: revisamos o carro antes de uma viagem, fazemos manutenção na casa e organizamos compromissos com meses de antecedência, mas deixamos a vida emocional entregue ao improviso. Só paramos quando o sofrimento alcança o corpo, perturba o sono ou começa a ferir nossos relacionamentos. Esperamos quebrar para admitir que alguma coisa vinha mal há bastante tempo.

O cuidado não nos torna invulneráveis. Quem se alimenta bem adoece, quem conhece a si mesmo também se engana, e nenhuma atenção elimina as incertezas da vida. Cuidar-se não é controlar tudo. É não se abandonar. É perceber uma dor antes de fazer dela uma companheira habitual, colocar um limite antes que o ressentimento tome conta, falar enquanto ainda existem palavras.

Ser o próprio médico não é possuir todas as respostas. É manter alguma atenção voltada para a própria vida.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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