A depressão se infiltra como uma névoa que apaga o brilho
É preciso reconhecer o sentido inconsciente do desânimo, acolher a dor que ele encobre e permitir que algo novo possa nascer a partir dessa escuta
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de fevereiro de 2026
É preciso reconhecer o sentido inconsciente do desânimo, acolher a dor que ele encobre e permitir que algo novo possa nascer a partir dessa escuta
Sylvio do Amaral Schreiner 

A depressão, sob o olhar da psicanálise, não é apenas um quadro clínico descrito por sintomas como tristeza, apatia ou falta de energia. É, antes de tudo, uma forma particular de relação do sujeito com a vida, consigo mesmo e com o outro. Freud, em 1917 no seu trabalho Luto e Melancolia, dizia que o estado melancólico, que hoje podemos aproximar de muitas manifestações depressivas, envolve uma identificação inconsciente com um objeto perdido (algum sentimento de perda) e um ataque dirigido ao próprio Eu. Em outras palavras, o ódio que não pôde ser elaborado se volta contra o próprio sujeito, corroendo-o de dentro para fora.
No cotidiano, esse movimento se expressa de forma quase silenciosa. A depressão vai se infiltrando como uma névoa que apaga o brilho das cores da existência. Aos poucos, a pessoa perde o interesse pelo que antes lhe dava prazer, o convívio se torna um fardo, e o isolamento surge não como escolha, mas como consequência de uma retirada de investimentos da vida. O depressivo sente que não há mais nada a esperar, que o mundo perdeu o sentido, e que ele próprio não tem mais lugar nele. A vitalidade se esvai porque a energia psíquica que deveria circular e ligar o sujeito ao mundo está aprisionada em um circuito interno de autodepreciação e culpa.
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O sujeito vivendo a depressão, muitas vezes sem se dar conta, busca anular tudo aquilo que o obriga a sentir: o prazer, a dor, o desejo. A vida, com suas exigências, torna-se insuportável e o retraimento surge como tentativa de defesa diante da frustração e do desamparo. O que chamamos de "falta de energia" é, na verdade, o resultado desse embate interno, em que o sujeito se volta contra si mesmo na tentativa de destruir aquilo que lhe causa dor, mas termina, sem perceber, destruindo também o que poderia fazê-lo viver.
A psicanálise compreende que a saída desse estado não se dá pela imposição de alegria ou por estímulos superficiais, mas pela escuta profunda do sofrimento. É preciso reconhecer o sentido inconsciente do desânimo, acolher a dor que ele encobre e permitir que algo novo possa nascer a partir dessa escuta. O trabalho analítico oferece um espaço onde o sujeito pode reencontrar, pouco a pouco, o fio que o liga à vida. Não uma vida idealizada, mas uma vida possível, habitável, onde o desejo volte a respirar.
A depressão, portanto, não é apenas ausência de alegria, mas uma forma complexa de relação com a existência. O caminho psicanalítico não busca curá-la no sentido médico do termo, mas compreendê-la, elaborá-la e transformá-la em algo que possa ser sentido e vivido. É na medida em que o sujeito pode falar e ser escutado verdadeiramente, que o ódio à vida pode se transformar em um novo modo de amar e de estar no mundo.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




