Há cenas que, quando observadas com atenção, revelam algo do profundo mal-estar na tarefa de educar. Uma criança que grita, se joga no chão, esperneia em público, enquanto os pais, visivelmente envergonhados, tentam explicar, negociar, convencer. Falam baixo, racionalizam, pedem “por favor”, como se estivessem diante de alguém já dotado de recursos psíquicos para compreender argumentos e se autorregular. O que se vê, porém, é outra coisa: uma criança pequena em estado de desorganização emocional, pedindo, ainda que de forma ruidosa e caótica, por um adulto que possa contê-la.

Vivemos uma época em que limites passaram a ser confundidos com autoritarismo, e ausência de limites, com liberdade. Essa confusão é perigosa. Para a criança pequena, não há liberdade sem sustentação psíquica. E essa sustentação não nasce pronta; ela é construída a partir da experiência reiterada de ser contida por um adulto capaz de suportar o excesso pulsional, a frustração, a raiva e o desamparo que a criança ainda não consegue elaborar sozinha.

Quando um adulto diz “não” com firmeza, sem humilhar, sem violência, mas com convicção e sem medo de ser julgado por quem está ao redor, ele não está “destruindo” a criança. Está, ao contrário, oferecendo um contorno para aquilo que, dentro dela, ainda é vivido como caos. Limites são organizadores psíquicos. Eles funcionam como bordas que tornam a experiência emocional suportável. Sem essas bordas, a criança fica entregue a uma vida mental intensa demais para sua capacidade de elaboração. Isso é enlouquecedor e profundamente assustador. A criança sente um alívio quando o adulto firmemente a contém.

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Outra coisa. Crianças precisam também de adultos que possam decidir por ela em muitos momentos de suas vidas. Vi recentemente, num restaurante por kilo, a cena de uma mãe perguntando a uma criança de três anos como ela desejava montar o próprio prato. Evidentemente, a criança pode expressar preferências, dizer do que gosta ou não gosta. Mas a responsabilidade pela decisão não pode ser delegada a quem ainda não tem recursos psíquicos para decidir. Colocar essa responsabilidade sobre a criança não é respeitá-la; é abandoná-la a uma ansiedade desnecessária. Por isso a criança lá no restaurante ficou sem saber como responder e ficava cantarolando e a mãe ficou brava achando que ela estava fazendo graça. Decidir exige um aparelho psíquico mais amadurecido que a criança ainda não desenvolveu.

Pais que evitam frustrar seus filhos, muitas vezes, o fazem movidos por medo: medo de traumatizar, de repetir erros do passado, de não serem amados. No entanto, a ausência de limites não protege do sofrimento; ela o amplia. A criança que “pode tudo” vive num mundo imprevisível, sem referências claras, sem a experiência de um adulto que se responsabiliza por ela. Isso não é liberdade; é desamparo.

Educar implica sustentar uma posição adulta. Implica tolerar o choro, a raiva, o protesto, sem recuar nem retaliar. Implica oferecer à criança aquilo que ela ainda não pode oferecer a si mesma: continência, organização e cuidado. Só a partir dessa experiência é que, aos poucos, ela poderá construir seus próprios limites internos e, então, caminhar com mais segurança no mundo. Limites não aprisionam; eles possibilitam a vida em sociedade e o desenvolvimento psíquico. Sem eles, o que se instala não é autonomia, mas angústia.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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