A obsessão por um texto e a obsessão amorosa
Perder textos sobre a minissérie "O Museu da Inocência" me deixou o vazio de quem perde um grande amor
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sábado, 21 de fevereiro de 2026
Perder textos sobre a minissérie "O Museu da Inocência" me deixou o vazio de quem perde um grande amor

Esta crônica nasce de um acaso. Na última quarta-feira, estava assistindo à minissérie "O Museu da Inocência", baseada num livro de Orhan Pamuk, que está na Netflix. Trata-se de uma obra de extrema delicadeza e, primeiro, escrevi sobre ela para as redes sociais. Não era um texto jornalístico, era um texto sobre uma obra de arte com incursões muito íntimas. Por um desse acasos misteriosos, perdi o primeiro texto, na hora de salvar e compartilhar fiquei sem conexão.
Teimosa, escrevi um segundo texto, sem a mesma força do primeiro, mas ainda assim com as sutilezas que esta história provoca. Na hora de salvar, o perdi também. E já eram 2 da madrugada. Este é o terceiro texto.
Pamuk ganhou o Nobel de Literatura em 2008 pelo conjunto de sua obra, foi o primeiro autor da Turquia a conquistar a premiação. Seu trunfo é contar histórias com paixão pelo que faz e isso fica claro em "O Museu da Inocência", uma narrativa na qual os detalhes ganham a força de personagens.
A história é sobre Kemal e Füsun, um homem rico obcecadamente apaixonado por uma mulher pobre, uma prima distante que ele não assume socialmente pelos tabus de classe que, quase sempre, definem as relações.
Trata-se de uma história de amor, mas também de um passeio por Istambul e pela Turquia, com pano de fundo sobre a situação política. Um autor mostrando seu país quando fala de amor fica maior do que um autor descontextualizado de sua cultura. E Pamuk é um grande autor, desses que a gente conhece por um fio narrativo e fica com vontade de devorar todos os seus livros.
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"O Museu da Inocência" é a história de uma obsessão amorosa, de um homem que coleciona objetos que pertenceram ou têm relação com sua amada. É a demonstração de como os objetos contêm histórias, como a perna de uma boneca despedaçada ou um brinco podem trazer Fusün para perto de Kemal.
Ele coleciona até suas bitucas de cigarro que formam um quadro com status de obra de arte. As bitucas coladas, uma junto da outra, criam a informação artística de um amor em detalhes, e também de um fetiche.
"O Museu da Inocência" é sobre a arte perigosa de viver um amor tóxico, como uma flor carnívora que atrai nossas fragilidades quando estamos apaixonados. E isso não é culpa do Outro, é de nós mesmos, quando buscamos amores atraídos pela nossa coleção de carências.
Recomendo a minissérie. Ela traz a reflexão sobre o desejo incompreensível de se atirar num amor mesmo com o risco de se perder. Mostra o desencontro amoroso como algo mais intenso que o encontro.
As emoções têm subjetividades românticas e o desejo, como se sabe, se alimenta da falta. Coisas a se pensar por quem dança à beira do abismo de uma paixão.
E, obsessiva ou não, confesso que perder meus textos mais íntimos sobre essa obra me deixou um vazio ou a sensação de também ter perdido um grande amor.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.





