Um dia um médico procurou Luiz Gonzaga, já então Rei do Baião, para lhe oferecer letras de músicas, e a mais conhecida delas seria "Xote das Meninas", com personagem médico e linguagem popular finamente poetizada:

“Mandacaru quando fulora (flora) na seca/ é sinal que a chuva chega no sertão / Toda menina que enjoa da boneca / é sinal que o amor já chegou ao coração / Meia comprida não quer mais (nem) sapato baixo / (quer) vestido bem cintado, não quer mais vestir timão” (tipo de vestido infantil) / Ela só quer, só pensa em namorar”

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O médico letrista chama de “dotô” o médico personagem: “De manhã cedo já tá pintada / só vive suspirando, sonhando acordada / O pai leva ao dotô a filha adoentada / não come nem estuda / não dorme e não quer nada / Ela só quer, só pensa em namorar”.

O médico letrista demonstra com as palavras a mesma habilidade que o consagraria obstetra e até diretor de hospital: “Mas o dotô nem examina/ chamando o pai de lado / lhe diz logo em surdina / que o mal é da idade / e que pra tal menina / não tem um só remédio / em toda medicina / Ela só quer, só pensa em namorar”.

Zé Dantas não quis assinar como letrista essa sua primeira música com Gozagão, temeroso de assim afetar seu nome como médico (obstetra).

Mas Gonzagão não respeitou o desejo do médico, e mais músicas da parceria virariam sucessos e composições clássicas da MPB, superando a condição de músicas regionais.

Curioso é que Zé Dantas seria vitimado pela medicina, pois, para tratar lesão num pé, tomou tantas e tais doses de cortisona que lhe afetaram fatalmente o fígado. Nascido em 1921, morreria aos 41 anos em 1962, deixando a certeza de que, se vivesse mais, decerto letraria mais obras-primas para Gonzagão, como A Volta da Asa-Branca:

“Já faz três noites que pro norte relampeia / e a asa branca ouvindo o ronco do trovão / já bateu asas e voltou pro meu sertão / Ai, ai, eu vou-me embora, vou cuidar da prantação

“A seca fez eu desertar da minha terra / mas felizmente Deus agora se alembrou / de mandar chuva pra esse sertão sofredor / sertão das muié séria, dos home trabalhador

“Rios correndo, as cachoeira tão zoando / terra molhada, mato verde, que riqueza / e a asa branca, tarde canta, que beleza / ai, ai, o povo alegre, mais alegre a natureza

“Sentindo a chuva eu me arrescordo de Rosinha / a linda frô do meu sertão pernambucano / e se a safra não atrapaiá meus pranos / que que há, aí ô Seu Vigário, vou casar no fim do ano”.

(Gonzagão acrescentou uma brincadeira ao final, falando em voz cantarolada: “Eu caso, seo Luiz, e não vou me esquecer do senhor, eita!”

Faz bem pra alma, e portanto deve fazer bem pro corpo, ouvir tal beleza em linguagem tão chã, a representar a capacidade brasileira de integração social, maior necessidade e meta da nação. Assim o médico Zé Dantas continua a cuidar da gente.

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