Turista se arrepende de visitar a cidade que sonhou conhecer
Vai jantar, estranha a conta, aceita explicação de que foi um “simples engano”, e vai dormir com cansaço transoceânico
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sábado, 25 de outubro de 2025
Vai jantar, estranha a conta, aceita explicação de que foi um “simples engano”, e vai dormir com cansaço transoceânico
Domingos Pellegrini 

Esta história me foi contada por Raul Fulgêncio. Pedro Álvares Cabral é turista português que, enjoado de ver tantos brasileiros em Portugal, resolve conhecer o país descoberto por seu homônimo, “até a ver porque tantos saem de lá”.
Desembarca no aeroporto e vai pegar a mala, cadê? Pergunta, espera, preocupa-se pois “como há de ser sem roupas num país distante?” Mas, ah, acham a mala e dizem que ele tem sorte pois “certa porcentagem da bagagem embarcada sempre se extravia”. Ele pensa ser brincadeira e vai pegar táxi. Como há fila, quase embarca num em fila dupla com motorista que lhe acena sorrindo, mas alguém previne que não vá, pode ser “clandestino” e lhe “trazer problemas”...
Então ele espera até que embarca, e abre a janela para a brisa do Rio de Janeiro de Tom Jobim, “Rio, teu mar, praias sem fim, Rio, você foi feito pra mim”... Mas o taxista previne que “é bom fechar a janela pra não lhe roubarem, senhor”.
Mas roubar o que, ele pergunta, o taxista lhe olha a mão e diz que, “não usando aliança, tudo bem”. Ora pois, ele retruca, “como roubar-me-iam aliança do dedo?” Arrancando, diz o motorista, “alguns desses ladrõezinhos já vêm com mão lambuzada de sabão pra aliança sair fácil”.
Ele pega o celular, para digitar a amigo português contando tal coisa, o taxista previne de novo: “Não use celular, também podem roubar”. Mas ele aponta a janela fechada, assim como roubar-lhe-iam o telemóvel? O taxista solta risadinha antes de dizer que, ora, “arrebentam a janela, ainda não tem vidro de segurança”.
O português mal acredita, como quebrariam o vidro?! Com martelo, diz o taxista, “ou barra de ferro já própria para isso”. Então ele embolsa o celular e depois, diante do hotel, paga o táxi e vai para a recepção, pensando num bom banho e... enquanto é atendido, dá uma olhada no saldo bancário e vê que falta dinheiro. Mais um, diz o recepcionista, depois lhe explicando que decerto ele caiu no golpe da maquininha ao pagar o táxi com cartão.
Alguém especializado nisso vem lhe ajudar e ele consegue bloquear o cartão que já está com nova retirada no saldo... Mas, como mesmo assim o prejuízo foi pouco comparado com a aventura de conhecer o Rio, resolve esquecer, passando a usar outro cartão, agora quer é conhecer e gozar as graças do Brasil.
Vai jantar num restaurante ao lado, estranha a conta, aceita explicação de que foi um “simples engano”, e vai dormir com cansaço transoceânico. Cedo, da janela vê o mar, já desce para o café com roupa de banho e, a caminho da praia, alguém passa correndo e leva sua bolsa.
Foi “algum moleque de morro”, explicam os policiais, e não há muito o que fazer, ele que fique “de olho aberto pra mãos bobas”. Ainda bem que enfiou a carteira na sunga e assim toma sol, trocando olhares com uma bela mulher, depois conversando gostoso e se beijando na areia e, quando ele vê, está com ela num hotelzinho e... um sujeito invade o quarto e ele fica só com a sunga, a carteira se vai.
Na delegacia, perguntam seu nome e ele diz Pedro Álvares Cabral, o policial diz que pode ser preso por desacato. Ele ajoelha e fala para o alto, prometendo nunca mais fazer turismo no Brasil. Então todos se agacham porque uma bala perdida estilhaça a janela, e depois ele passará a semana no quarto do hotel até embarcar de volta a Portugal.


