Um herói de todo dia
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sábado, 29 de agosto de 2020
Domingos Pellegrini 
Ainda peguei o rabicho do tempo em que os fogões falavam com suas línguas vermelhas de fogo de lenha. Na casa de Vó Tiana, seu filhos lhe deram fogão a gás, que eles usavam nas suas visitas a ela, que continuava com seu fogão a lenha, sempre com braseiro esperando mais lenha. Os paus ficavam fora da casa mas ao lado da porta da cozinha, e, sobre a chapa de ferro do fogão, ficava uma chaleira sempre com água quentinha.
Se o fogão é o coração da casa, o fogão a lenha deixava a casa mais calorosa e acolhedora; mas foi derrotado por um herói esquecido porque não lutou em batalhas nem fez épicas viagens – mas formatou o fogão a gás! Que foi criado pelo inglês James Sharp em 1826, usando gás de carvão que era usado para iluminação pública, mas seria o cozinheiro francês Alexis Soyer que tornaria o invento prático e acessível como temos hoje, apregoando que era limpo e econômico, pois podia ser ligado só na hora de cozinhar, não ocupava espaço com lenha e não fazia fumaça!
Chefe de cozinha de um clube de cavalheiros, em Londres, em 1837 Soyer aproveitou que o clube mudava para nova sede em construção e, com a visão e garra dos inventores, criou uma espantosa cozinha com fogões a gás e fornos de temperaturas ajustáveis, além de uma máquina a vapor que bombeava água, aquecia os banho-marias e acionava elevadores de carga e ventiladores. Mas mesmo os mais ilustres cavalheiros temiam que aquilo explodisse...

Conta Tio Goo que então, no dia da coroação da Rainha Vitória, Sharp serviu café da manhã para duas mil pessoas, demonstrando que o gás não mataria ninguém, ao contrário, faria viver melhor, pois as pessoas poderiam chegar em casa e cozinhar sem ter de lidar com lenha e fazer fogo ou, pior, deixar sempre fogo aceso. Começou assim uma libertação depois só comparável, nos lares do mundo, à lavadora elétrica no lugar dos tanques de lavar roupa.
Sua cozinha ficou tão famosa que foi aberta à visitação pública, tornando-se a segunda atração mais visitada de Londres, perdendo apenas para o Museu de Cera. Animado, em 1851 Soyer inventou então o primeiro fogão doméstico a gás, que em pouco espaço podia assar, cozer, grelhar e fritar comida para até 70 pessoas, um assombro!
Herói sem discursos nem fanfarras, criou fogões que ajudaram a Irlanda e o Reino Unido a lutar contra a chamada Grande Fome, para produzir milhões de refeições e salvar muitas vidas. Chamava de Fogão Mágico, por conseguir gerar calor bastante para cozimento ideal dos alimentos, e passaria ser produzido e usado em massa em todo o mundo, avô dos nossos fogões.
Depois seu fogão ganharia pintura esmaltada, para facilitar limpeza, acendedor elétrico, superfície de inox etc, como conhecemos hoje, mas basicamente é o mesmo fogão que um cozinheiro criou para nos livrar da lenha depois de milênios. Foi um inventor desses que criam para servir à Humanidade, como Santos Dumont, que também nunca requereu patente de seus inventos; Soyer doou ao mundo, para o pão nosso de cada dia, nosso fogão de todo dia. Um herói coberto de farinha.


