Ainda peguei o rabicho do tempo em que os fogões falavam com suas línguas vermelhas de fogo de lenha. Na casa de Vó Tiana, seu filhos lhe deram fogão a gás, que eles usavam nas suas visitas a ela, que continuava com seu fogão a lenha, sempre com braseiro esperando mais lenha. Os paus ficavam fora da casa mas ao lado da porta da cozinha, e, sobre a chapa de ferro do fogão, ficava uma chaleira sempre com água quentinha.

Se o fogão é o coração da casa, o fogão a lenha deixava a casa mais calorosa e acolhedora; mas foi derrotado por um herói esquecido porque não lutou em batalhas nem fez épicas viagens – mas formatou o fogão a gás! Que foi criado pelo inglês James Sharp em 1826, usando gás de carvão que era usado para iluminação pública, mas seria o cozinheiro francês Alexis Soyer que tornaria o invento prático e acessível como temos hoje, apregoando que era limpo e econômico, pois podia ser ligado só na hora de cozinhar, não ocupava espaço com lenha e não fazia fumaça!

Chefe de cozinha de um clube de cavalheiros, em Londres, em 1837 Soyer aproveitou que o clube mudava para nova sede em construção e, com a visão e garra dos inventores, criou uma espantosa cozinha com fogões a gás e fornos de temperaturas ajustáveis, além de uma máquina a vapor que bombeava água, aquecia os banho-marias e acionava elevadores de carga e ventiladores. Mas mesmo os mais ilustres cavalheiros temiam que aquilo explodisse...

Alex Soyer
Alex Soyer | Foto: Reprodução

Conta Tio Goo que então, no dia da coroação da Rainha Vitória, Sharp serviu café da manhã para duas mil pessoas, demonstrando que o gás não mataria ninguém, ao contrário, faria viver melhor, pois as pessoas poderiam chegar em casa e cozinhar sem ter de lidar com lenha e fazer fogo ou, pior, deixar sempre fogo aceso. Começou assim uma libertação depois só comparável, nos lares do mundo, à lavadora elétrica no lugar dos tanques de lavar roupa.

Sua cozinha ficou tão famosa que foi aberta à visitação pública, tornando-se a segunda atração mais visitada de Londres, perdendo apenas para o Museu de Cera. Animado, em 1851 Soyer inventou então o primeiro fogão doméstico a gás, que em pouco espaço podia assar, cozer, grelhar e fritar comida para até 70 pessoas, um assombro!

Herói sem discursos nem fanfarras, criou fogões que ajudaram a Irlanda e o Reino Unido a lutar contra a chamada Grande Fome, para produzir milhões de refeições e salvar muitas vidas. Chamava de Fogão Mágico, por conseguir gerar calor bastante para cozimento ideal dos alimentos, e passaria ser produzido e usado em massa em todo o mundo, avô dos nossos fogões.

Depois seu fogão ganharia pintura esmaltada, para facilitar limpeza, acendedor elétrico, superfície de inox etc, como conhecemos hoje, mas basicamente é o mesmo fogão que um cozinheiro criou para nos livrar da lenha depois de milênios. Foi um inventor desses que criam para servir à Humanidade, como Santos Dumont, que também nunca requereu patente de seus inventos; Soyer doou ao mundo, para o pão nosso de cada dia, nosso fogão de todo dia. Um herói coberto de farinha.

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