AOS DOMINGOS PELLEGRINI -

Para onde vão as avós


Criança perguntou para onde foi sua avó que se foi, e na hora não consegui responder, respondo agora.

As avós vão para um mundo onde todos os netos avisam antes de chegar na casa delas, e depois chegam na hora que avisaram.

As avós vão para um mundo onde todas as noras são amigas entre si e da sogra.

 

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. | Dalva Vidotte/ Divulgação
 



As avós vão para um mundo as netas não teimam em fazer exatamente como elas faziam na mesma idade, um mundo onde os jovens fazem tudo com a serenidade da terceira idade e a segurança da experiência.

As avós vão para um mundo sem panquecas que queimam esquecidas, sem meias por cerzir e panelas por arear (palavra ainda do tempo em que se lavava panelas com areia!), um mundo onde também os avôs fazem panquecas e bolinhos de chuva, lavam a louça e cerzem as meias.



As avós vão para um mundo com muitos vasos e flores que nunca será preciso regar nem cuidar, mas a maioria das avós acha ótimo no começo mas depois se queixam da saudade de cuidar de vasos e jardins.

As avós vão para um mundo onde nunca pegarão um bebê úmido ou fedidinho, e nenhuma sentirá saudade disso.



As avós vão para um mundo onde elas falam e os avôs não só prestam atenção como pensam a respeito, praticando a origem latina do verbo conversar, que é conviver.

As avós vão para um mundo onde poderão, como quando meninas, chupar sorvete até enjoar e comer doce de montão sem pensar em doenças.



As avós vão para um mundo onde as netas perguntarão o que fazer na primeira menstruação, e as avós poderão consultar a internet para saber direitinho o que dizer.

As avós vão para um mundo onde, na hora de falar, todos esperam os mais velhos falar antes.



As avós vão para um mundo sem medidores de pressão nem insônia, sem controle de calorias e glicose, e sem atrizes e galãs queridos morrendo toda semana.

As avós vão para um mundo com bastante elogios, mesmo pequenos mas sempre verdadeiros, reconhecendo coisas que poucos reconheceram ou valorizaram nelas.



As avós vão para um mundo sem piadas de sogra, ao menos quando elas estiverem presentes, um mundo também sem mocinhos vilões, ídolos canastrões, líderes falastrões e seguidores tontões.

As avós vão para um mundo sem netos a sofrer pela separação dos pais, onde poderão consolar todos e consertar tudo com boas histórias e ótimos silêncios.

As avós vão para um mundo onde os filhos não se tornarão inimigos por causa de ídolos políticos e delírios ideoilógicos.



As avós vão para um mundo onde reverão tudo que viveram como se vistas por outra pessoa, assim não sentindo vergonha ou medo de reconhecer erros, perdoar pessoas, entender os absurdos.

As avós vão para um mundo sem anjos nem demônios, noites só com sonhos bons, dias sem sobressaltos, manhãs sem ilusões e poentes sem amargura.



As avós vão para um mundo sem varizes, cicatrizes sem lembranças, esperanças sem crise.

Quanto aos avôs, vão para o mesmo mundo, prontos para receber tudo a que tem direito conforme foram parceiros das avós, e é um mundo como só.


* A opinião do colunista não reflete, necessariamente, a da Folha de Londrina.


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