Na foto, vejo antes de tudo que Vó Tiana está sorrindo. Dela em Londrina lembro a casa de madeira sobre toras, com porão baixo aberto por todo lado, onde conviviam tralhas, crianças e galinhas.

Eu me sentia senhor dali, e um dia ela agachou lá fora me chamando. Falou que tinha medo de eu cortar a cabeça nalguma ponta de prego ou pegar piolho de galinha, por que não ia comer batata-doce na cozinha? O forno do fogão a lenha deixava a batata tostadinha e cremosa, e outra delícia eram as mangas caídas da grande mangueira no quintal. Ela catava, com faca bem afiada cortava a parte não batida da manga e me dava, dizendo que pro chão a mangueira só dava manga madurinha.

Uma das toras pilares da casa tinha uma colmeia de abelhas jataí, que entravam e saíam por um tubo de cera, que eu sempre amassava com o dedo só pra depois ver elas refazendo. Mas vó viu e perguntou que é eu achava de alguém derrubar nossa casa todo dia, daí nunca mais mexi na casa das abelhas.

O quintal tinha dois quaradores de taquara, um maior para roupas, outro menor para os peixes que vô João pescava no Tibagi e trazia num saco cheio, para ela limpar, salgar, secar ao sol no quarador e guardar em latonas de banha, era ainda no tempo antes das geladeiras. Para fritar, ela esquentava bem a frigideira, onde cada pedaço banhoso de peixe ia soltar um forte chiado.

Depois eles foram morar em Assis, onde eu ia passar férias inteiras, e onde não lembro de riso em vó Tiana, que porém estava sempre sorrindo como na foto. Está também olhando para baixo, para a terra do grande quintal onde plantava de tudo. Temperos e ervas, limão, milho, batatas, maracujás, goiabas, mangas, quiabo, pepino, nada em canteiros, tudo em touceiras ou recantos entre trilhas enfolharadas, e onde se cavocava emergiam minhocas. O quintal era uma quitanda viva e também uma usina, onde o lixo da cozinha se transformava de novo em comida.

Era o “quintal da Tiana”, com passarinhada sempre cantando e onde, só agora sei, ela já implantava um avançado sistema de recuperação e fertilidade que hoje chamam de agricultura sintrópica.

No fundo da foto vê-se cerca de balaústres, símbolo das nossas origens roceiras, pedaços ainda da mata na cidade que se entijolou, pois a casa agora já era de alvenaria.

Também na foto seus seios, pendidos no vestido, dizem que ali mamaram nove bocas. E a todos ela encaminhou na vida antes de morrer “de velhice” aos sessenta e dois anos, naquele tempo de vida tão trabalhosa, sofrimentos desgastantes e carências envelhecedoras.

É como se a vó na foto dissesse ao neto para agradecer por agora já viver década a mais do que ela, com tantas facilidades e praticidades e conforto e assistência como temos hoje.

Sempre que lido aqui em nossa horta e afloram minhocas, lembro dela dizendo não, não mate nenhuma, deixe elas voltarem pra terra delas. Ela nunca ouviu a palavra ecologia e respeitava até as minhocas, amava até os insetos e dizia que as sementes são as jóias da natureza. Era rica assim a mulher da foto.

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