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Londrina

AOS DOMINGOS PELLEGRINI

m de leitura Atualizado em 30/07/2022, 11:07

Desentortando a horta, uma crônica sobre verduras e quintais

PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de julho de 2022

Domingos Pellegrini
AUTOR autor do artigo

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Nossa horta não é reta como são muitas hortas, é uma reunião de canteiros irregulares como ilhas entre trilhas. Não será melhor refazer em dois longos canteiros retangulares com uma só trilha?

Hortas havia já na Antiguidade, e a própria agricultura deve ter começado como horta casual, naquelas sementes que germinaram cuspidas ao lado da fogueira, e hoje há hortas empresariais, coletivas, educativas, terapêuticas... Já nossa horta aqui fomos fazendo aos pedaços, enterrando lixo da cozinha com humus e até cocô da Branquinha para virar verduras. Só verduras, porque legumes a horta educativamente foi nos ensinando que é coisa para horticultores, nós somos só horteiros. Cenouras saíram da terra miúdas, repolhos bicharam, tomates exigem estacas, e a batatinha se esparramava demais, enquanto os pés de berinjela deram tantas que enjoamos.

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Então nossa horta dá só alface, rúcula, almeirão e especiarias, mas também dá o orgulho de não comprar mais verduras, além do prazer terrapêutico de hortar. Contra o mato, usamos o método mais antigo e ecológico, arrancando à mão as plantinhas emergentes, antes que sementeiam e pronto.

Selfie: Analu Alcover Pellegrini Selfie: Analu Alcover Pellegrini
Selfie: Analu Alcover Pellegrini |  Foto: Acervo pessoal
 

Já o melhor sistema de trabalho para horta caseira é o casamento: eu picareteio afofando e adubando um canteiro, Dalva planta, regamos um dia um, outro dia outro. Depois comemos comungando o que a terra nos deu porque trabalhamos, esse trato ancestral da vida com o planeta, que nos dá sol e chuva e nós trabalhamos pra merecer.

É um planeta tão raro que os telescópios, vendo até que não existem mais estrelas cuja luz ainda chega aqui, não enxergam outro planeta capaz de gerar e abrigar vida. Mesmo assim planeja-se viagem a Marte, para sabidamente encontrar um planeta árido e trazer pedras para confirmar que é um planeta árido. Serão no seu custo as pedras mais caras do mundo, levando a pensar se não seria muito melhor investir mais no planeta que nos dá a vida.

Penso no planeta sempre que rego a horta, afinal é nosso pedacinho da Terra. Tudo indica que nossos lixos – dos lixões urbanos ao oceânico, além do radiativo – vão continuar nos castigando mais e mais. Será que esperarão litorais submersos para levar a sério os avisos do clima? E quando as tempestades arrancarem até os mastros das bandeiras, ainda haverá quem ache mais importante investir em mais mísseis? Ainda haverá quem ache que tudo é de Deus e devemos nos conformar com as chaminés industriais e as embalagens de plástico, as queimadas e os lixões?

Mas ao menos um pedacinho do planeta vai bem para quem cuida duma horta. Então: será melhor aprumar nossa horta ou deixar assim toda torta? Racionalmente, decerto será melhor endireitar, com só dois canteiros retangulares aproveitando mais a área, mas assim não seria mais uma horta reta entre tantas?

Resolvemos pois deixar nossa horta torta, com seus canteiros que afofei molhando o macacão a picaretadas, e Dalva cercou com pedras e com cuidados. Afinal, a melhor horta do mundo, tão propriamente torta, é a nossa horta.

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A opinião do colunista não reflete, necessariamente, a da Folha de Londrina.

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