Parabéns pelo seu novo cargo de diretor
Diretoria não é recompensa por fidelidade. Não é prêmio por não ter saído da empresa; é descentralização de poder com responsabilidade real
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segunda-feira, 20 de abril de 2026
Diretoria não é recompensa por fidelidade. Não é prêmio por não ter saído da empresa; é descentralização de poder com responsabilidade real

Há uma cena que se repete em empresas brasileiras com a regularidade de um soluço. O dono reúne a equipe, faz um discurso emocionante sobre o quanto Fulano merece, e anuncia: "A partir de hoje, você é nosso Diretor." Aplausos. Foto. Novo cartão de visitas.
E Fulano, agradecido e orgulhoso, vai para a mesa dele e continua fazendo exatamente o que fazia antes. Porque ninguém explicou o que mudou. Porque, na prática, nada mudou. O cargo nasceu. A função, não.
Agora, uma pergunta ao Fulano: “Você sabe o que é isso?”
Diretoria não é recompensa por fidelidade. Não é prêmio por não ter saído da empresa nos últimos dez anos. É um mecanismo de descentralização de poder com responsabilidade econômica real, ou seja, uma forma elegante de dizer que o diretor decide, erra, e não pode culpar o mercado quando a conta chega.
O problema começa antes da promoção. Diretoria pressupõe complexidade real: áreas interdependentes, decisões que não podem subir ao dono, gestores que precisam de alguém com autoridade para arbitrar conflitos. Criar um diretor numa empresa simples é como colocar farol de carro de luxo num fusca. Fica bonito. Não ilumina mais.
E quando a complexidade existe, o candidato precisa demonstrar cinco coisas antes de ganhar o título: 1. que pensa em “sistema”, não só na própria área; 2. que suporta conflito sem precisar ser amado; 3. que entende um DRE sem fazer cara de quem viu a Pedra de Rosetta; 4. que decide com informação incompleta; e 5. que assume o erro sem distribuir a culpa em parcelas iguais para a equipe, o mercado e a conjuntura.
Se ele ainda não faz isso, não é diretor. É um gerente mais caro. E resta um pequeno detalhe. Se ele não tem orçamento definido e autonomia de decisão sobre tal orçamento, não tem poder nenhum. Só responsabilidade a troco de alguns reais a mais no salário.
A boa notícia: quase tudo isso se constrói. A má: demora, dói e exige que o dono abra mão do controle central antes de se sentir confortável para isso. Essa parte do controle central eu nunca vi acontecer. Geralmente, o dono passou anos construindo uma empresa inteira no próprio colo.
No entanto, quem não cumpre este protocolo não terá uma empresa. Terá uma dependência com CNPJ.


Abraham Shapiro
Coach e escritor.



