Há uma doçura quase infantil na forma como buscamos atalhos para os nossos desejos mais profundos. Como o simplório camponês Nemorino, na ópera L’elisir d’amore, de Gaetano Donizetti, por vezes nos sentimos pequenos diante da inteligência de uma Adina ou da imponência de um Sargento Belcore.

É nesse momento de fragilidade que o coração, em sua pressa de ser amado, aceita o convite do charlatão Dulcamara e deposita toda esperança em um frasco de vinho comum, batizado de elixir.

A história, numa versão imortalizada pelas vozes de Rolando Villanzón e Anna Netrebko, que tive a maravilhosa oportunidade de assistir recentemente, é um espelho dócil e mágico das nossas próprias buscas.

Nemorino acredita que a magia mora no externo; que a confiança é algo que se compra em um frasco de vidro, e que o valor pessoal é um efeito colateral de uma herança financeira inesperada ou de uma fórmula secreta.

Quantas vezes não somos nós, em nossos próprios palcos, procurando por ferramentas, cursos ou "elixires" que prometem nos tornar irresistíveis, sem perceber que a plateia já está encantada pelo que somos?

O que torna essa obra tão indulgente conosco é a sensível e fantástica descoberta final: Adina não se rende ao feitiço do elixir, nem ao brilho da herança que aquele simples camponês recebe de um falecido tio. Ela se curva à transparência da alma de Nemorino, a seu sofrimento autêntico e à coragem de ser apenas ele mesmo. Aí está o delicado lembrete: “a clareza sempre vence a esperteza”.

A vida, assim como a ópera cômica, nos perdoa pelas nossas pequenas ingenuidades e autoenganos. Ela nos convida a deixar de lado as fórmulas prontas e a confiar na nossa própria essência.

No fim, o verdadeiro elixir não é algo que se bebe, mas a percepção de que a nossa autenticidade é o único recurso do qual realmente precisamos para conquistar o que é genuíno e puro ao longo de toda a nossa existência nesse mundo.

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