Dizem que Heráclito afirmou: “A única constante da vida é a mudança.” Não foi exatamente assim, mas a frase funciona como um guarda-chuva emprestado: não é nosso, porém ajuda quando começa a chover.

Para o filósofo, tudo se move. O rio muda, a água passa e nós também já não somos os mesmos ao tocar novamente sua margem. Isso não significa que a vida seja uma bagunça administrada pelo acaso. Existe ordem no movimento, uma unidade escondida no vaivém das coisas.

A vida se parece com um barco em alto-mar. Não controlamos os ventos, as ondas nem o humor do céu. Mas podemos ajustar as velas, corrigir a rota e decidir como atravessar a tempestade. A minha experiência mostrou que quem insiste em exigir vento favorável antes de partir transforma o porto em estacionamento de sonhos.

O problema é que desejamos mudança desde que ela não mexa na nossa agenda, nas nossas certezas ou na cadeira confortável onde estacionamos a coragem. Queremos um futuro novo sustentado por hábitos antigos. É como pedir outra paisagem sem sair da janela — ou reclamar do destino enquanto mantemos o barco amarrado.

Mudar não exige demolir a vida inteira nesta segunda-feira. Exige lucidez para reconhecer o que perdeu sentido e firmeza para dar um passo possível. Pode ser uma conversa difícil sempre adiada, um limite necessário, um aprendizado, um pedido de perdão ou o abandono de uma desculpa cuidadosamente cultivada.

Permanecer imóvel também é uma escolha. Mas esta é uma escolha disfarçada de prudência, conforto e espera.

O rio continuará correndo e o vento não pedirá nossa opinião. O que eu poderia aconselhar, querido leitor, se pudesse? Esforce-se por fazer esta escolha: ajuste as velas, assuma o leme e avance. A mudança já começou. Resta saber se você será conduzido por ela ou participará conscientemente da travessia.

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