Três amigas num bar, sábado à noite, calor de sauna e ventilação de museu. O ambiente abafado faz uma delas passar mal e… pluft: desmaia. E aí acontece o que sempre acontece nesses momentos: a vida vira um teste surpresa, e ninguém está preparado.

A primeira olha a cena com o mesmo olhar de quem viu o último capítulo da novela e pergunta, em modo “liderança emergencial”: — “O que vamos fazer?”

A segunda, com a calma científica de quem fez Medicina pela Universidade do TikTok, decreta: — “Vamos jogar um copo de cerveja na cara dela.”

E aí, numa frase curta, brota o retrato oficial do altruísmo brasileiro contemporâneo:— “Então não vai ser a minha cerveja… se quiser, jogue a sua.”

Pronto. Maktub, em árabe. "Estava escrito!" A solidariedade é maravilhosa… até tocar no patrimônio. A gente topa ajudar, aconselhar, segurar a amiga, chamar socorro, fazer massagem cardíaca, rezar, prometer que vai mudar de vida, tudo, desde que não envolva perder algo concreto, gelado e pago no cartão com limite chorando.

Não é falta de amor. É matemática. Ela quer a amiga bem, claro. Só quer também que o copo continue existindo, porque ali dentro não tem apenas cerveja. Tem investimento, dignidade, tem o último dinheiro da semana e talvez o almoço de segunda.

No mundo profissional, isso é padrão ouro. Todo mundo ama “o projeto”, “a cultura”, “o time”… até o momento em que alguém diz: — “Ok, então você vai abrir mão de alguma coisa.” Aí o entusiasmo se manifesta como: “Vamos com calma”.

Na verdade, a cena que eu descrevi nada tem a ver com maldade. É sobre juventude. Juventude universitária. Pouco dinheiro, muita amizade, coração enorme e bolso microscópico. São capazes de tudo pelo outro — dar o casaco, dividir o miojo, emprestar o carregador, brigar com o segurança, enfrentar a chuva, encarar a vida… Existe apenas uma linha vermelha sagrada: “Perder o copo de cerveja??? Isso já é pedir demais.”

Amar é bonito. Mais que isso. Amar é lindo. Mas amar sem que ninguém mexa no copo de IPA gelada é uma sinfonia monumental.

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